12 de fev de 2014

É dos carecas que elas gostam?


Estava pesquisando na internet o texto original de um hino de Sinésio de Cirene (c. 365- c. 414) que está no hinário da Igreja Luterana do Sínodo Missouri (Lord Jesus, Think on Me, traduzido por Allen William Chatfield, sob o n.º 610 no Lutheran Service Book). A prova de que os fatos curiosos nos chamam a atenção, especialmente quando nos agradam e exaltam aquilo que em nós é pouco abundante, é que minha pesquisa tomou outro rumo ao verificar que este filósofo neoplatônico e bispo de Ptolemais,  antigas cidade da província romana de Cirenaica, escreveu um Elogio da Calvície. Sinésio de Cirene (370-413) escreveu o Elogio da Calvície como resposta ao Elogio da Cabeleira de Dion de Prúsia ou Dion Crisóstomo

O Elogio era um gênero literário de estilo pomposo para celebrar alguma divindade, personagem, cidade, etc. Posteriormente começou a aparecer os elogios do papagaio, do mosquito, da cabeleira, da mosca, da calvície, etc. O gênero chega ao renascimento com o Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam. Há muitas traduções das obras de Sinésio na internet, principalmente em inglês, inclusive do Elogio da Calvície. Não encontrei o texto online em português na íntegra.

Transcrevo apenas alguns trechos transcritos do Googlebooks de O elogio da calvície de Sinério de Cirene, traduzido por João Batista Camilotto e publicado pela EDIPUCRS (Porto Alegre, 2000):

Quanto a mim, desde que a desgraça sobreveio e o cabelo começou a ir-se-me embora, confrangeu-se-me o coração. Depois, continuando o mal - primeiro num paulatino progredir, em seguida com mais rapidez, como numa guerra devastadora - vi-me tratado mais rudemente do que os Atenienses, quando Arquídamos lhes foi arrasar as árvores até chegar ao burgo de Acarnes.
A breve trecho achei-me reduzido a tais extremos que me assemelhava a um desses rústicos habitantes de Eubéia que só usam cabelo na parte posterior da cabeça, como no-los mostra a poesia, quando os conduz diante de Tróia.
Em minha mágoa, a qual deus, a qual demônio não acusei, então! Veio-me mesmo a tentação de escrever o elogio de Epicuro. Não que eu partilhe das idéias que ele se faz a respeito dos deuses; tinha eu, no entanto, boas razões para atacá-los. Daí por que me surpreendia a dizer comigo mesmo: Onde está a Providência que a todos deve tratar-nos segundo nossos méritos? Que crime teria cometido para ser objeto de horror aos olhos das mulheres? Aos olhos das mulheres da vizinhança, ainda vai; ninguém menos do que eu abusa dos prazeres de Vênus, e em pontos de castidade posso pedir meças ao mesmo Belerofonte. Mas as mães, mas as irmãs são sensíveis, diz-se, à beleza dos filhos, dos irmãos; testemunha é disso Parisátis que declara aversão ao rei Artaxerxes por causa do belo Ciro.
Assim é que eu me queixava dos deuses e minha desgraça me parecia insuportável. Pouco a pouco, porém, o hábito e a razão me ajudaram a suportar a tristeza, e eu principiava a consolar-me, e a paciência me ensinava a suportar meu mal.
Eis senão quando Dion reaviva minhas mágoas. A dor excitada torna a assaltar-me.
O bispo Sinésio de Cirene me fez lembrar de outro bispo Sinésio: o bispo emérito da Diocese de Santa Cruz do Sul, Dom Sinésio Bohn, com quem já tive alegres momentos de conversa e diálogo. Mas minha pesquisa foi instigante e só parou no texto Em louvor à calvice, do Rubem Alves:

Em louvor à calvice

As crianças sofrem muito. Nós, adultos, rimos do sofrimento das crianças. Elas sofrem por coisas tão bobas. Bobas para nós. Não são bobas para elas. Pois uma de minhas netas, cujo nome não vou revelar para que ela não se sinta embaraçada (ela é aquela que gosta de ficar observando as estrelas), tinha um sonho: queria que o seu avô, eu, fosse até a sua escola para contar estórias para seus coleguinhas. Ela gosta tanto de mim, gosta tanto das minhas estórias, e queria que seus coleguinhas me conhecessem para ver que avô legal ela tem. Como preparativo para esse encontro seus pais lhe deram vários dos meus livros para que a professora lesse as estórias para a criançada. Aconteceu, entretanto, que num desses livros havia uma fotografia minha que, por ser verdadeira, apresentava-me com a calva que faz parte do meu visual. Pois uma de suas coleguinhas, ao ver a minha calva, teve um ataque de riso. Para ela não havia coisa mais engraçada que um homem careca. Quando os pais de minha neta foram buscá-la na escola, ao fim do dia, encontraram-na num pranto incontido, entrecortado por soluços: “Papai, não quero que meu avô vá à minha escola contar estórias. Não quero que meus colegas riam da careca do vovô…” Fiquei comovido com o sofrimento da minha neta e o seu cuidado para que ninguém risse de mim. Como disse, as crianças sofrem muito. O seu choro era uma prova de amor.
Motivado por esse incidente decidi-me a escrever um elogio à calvície que, sem dúvida alguma, representa um notável avanço na evolução humana no sentido do seu aprimoramento estético, ético e intelectual.
Só conheço um relato histórico que diga o contrário. Mas, como é sabido, todas as regras tem exceções. É o caso do profeta Eliseu, homem de poderes extraordinários, todos eles confirmados pelo fato de estarem registrados nas Escrituras Sagradas que foram diretamente inspiradas por Deus e não mentem jamais. Aconteceu que o profeta Eliseu era careca. E ele, como a menininha, morria de rir quando via sua calva refletida no espelho. Só que o seu riso não era um riso feliz. Era riso de raiva e de inveja. Ele se achava ridículo. Queria mesmo era ser como Sansão. A solução teria sido usar uma peruca, fazer reimplante ou apelar para o interlace. Mas esses recursos não existiam naqueles tempo. Admira-me que ele não tenha se lembrado do recurso extraordinário do milagre. Homem de Deus que ele era, coisa que seus muitos milagres o comprovam, não lhe passou pela cabeça fazer um modesto milagre em benefício próprio. Bastava que ele dissesse: “Cabelos, nasçam na minha cabeça e transformem-se numa glamorosa cabeleira de cabelos sedosos!” É claro que Javeh não iria recusar milagre tão simples a um homem que tanto o temia, considerando-se que, como dizem inúmeros adesivos colados nos carros, “Deus é fiel”. Por falta de imaginação continuou careca. Pois vejam o que aconteceu, tal como no-lo relata o livro de II Reis 2: 23: “Ao subir pelo caminho uns rapazinhos que saíram da cidade zombaram dele dizendo: Sobe, careca! Sobe, careca! Eliseu virou-se, olhou para eles e os amaldiçoou em nome de Javeh. Então saíram do bosque duas ursas e despedaçaram quarenta e dois deles. Dali ele foi tranqüilamente para o monte Carmelo…” Isso é prova cabal do amor que Deus tem pelos carecas, amor muito maior que o amor por quarenta e dois rapazinhos. Portanto, cuidado todos vocês, que zombam dos carecas! É possível que ursas estejam à espreita… (Eu não sabia que naquela região havia ursos. Mas para Deus nada é impossível…)
Eu jamais faria uma coisa assim, porque gosto muito da minha careca e muito mais ainda de quarenta e dois rapazinhos. O fato é que desde a mais remota antigüidade a calvície tem sido considerada uma evidência de virtudes paranormais. Sugeriria, inclusive, aos biólogos, que fizessem uma pesquisa sobre o sentido da calvície no processo da evolução. Isso é claramente evidente àqueles que têm olhos científicos. Pois os nossos ancestrais mais primitivos, os macacos, eram coberto de pelos, em todas as partes do corpo. Quando se vê um homem muito peludo o que se diz é: “Ele se parece com um macaco”. Podemos concluir que abundância de pelos indica que aquele que os tem ocupa um lugar mais primitivo na linha da evolução e que, à medida em que a evolução faz o seu trabalho, os pelos vão desaparecendo. Calvície, também, é prova de masculinidade. As mulheres jamais ficam carecas, a não ser que haja alguma enfermidade. Já está demonstrado que a calvície está relacionada a uma abundância de hormônios masculinos, o que levanta a hipótese de que os calvos sejam mais potentes que os cabeludos. A verificação dessa hipótese seria muito fácil: bastaria que, nas farmácias, se registrasse a proporção de cabeludos comprando viagra em relação aos carecas.
A calvície, assim, é índice positivo de virilidade. E não somente isso. Também virtudes másculas, intelectuais e de caráter. Ulisses, o herói da Odisséia (ele também se chamava Odisseu) era calvo. Sua calvície nada retirava de seu heroísmo e beleza. Ao contrário. Parece que o seu heroísmo estava diretamente ligado à sua calva. Será que a calva indica uma relação privilegiada com os deuses? É uma hipótese a ser investigada. O herói da Guerra de Tróia, imortalizado por Heródoto, navegou perdido pelos mares por dez anos, pensando na sua doce Penélope. Será que os calvos são mais apaixonados e mais fiéis? Outra hipótese a ser objeto de uma tese de mestrado. E ela o esperava, lutando contra os cabeludos que a queriam por esposa. De dia tecia, de noite destecia… Enquanto fazia isso pensava no abraço do seu doce e maravilhoso careca, Ulisses. Os carecas têm um charme especial, charme que foi cantado especialmente pelas mulheres, numa marchinha antiga de carnaval: “É dos carecas que elas gostam mais…”
Vejam agora os cabeludos. Hitler tinha cabelos em abundância na cabeça, e na região sub-nasal. Igual ao Saddam Hussein (o que explica o curiosíssimo fato de que todos os seus soldados tinham bigode preto. Penso que, talvez, cabelos e bigodes fossem uma exigência para se entrar no exército, juntamente com carteira de identidade e exame médico). Também o Demolidor do Presente, que se auto-proclamou Libertador do Iraque, é dotado de glamorosa cabeleira. Coisa que se repete com o Demolidor do Futuro, que gasta oito horas por dia fazendo musculação, o que é uma manifestação incontestável de sua inteligência e dos seus valores. Não foi à toa que os eleitores esclarecidos da Califórnia, estado de universidades famosas, o elegeram como governador. De fato, sem educação não se faz democracia. Acrescento, à guisa de exceção a ser levada em conta, o embaixador Itamar Franco, que se elegeu como governador das Minas Gerais graças ao seu topete. Os cabelos – ou ausência deles – revelam a alma. Você pode imaginar uma alma com bigodes e cabeleira?
O fato é que a calva é charme. Lembram-se do Yil Bryner, que fez a primeira versão de Ana e o Rei de Sião? E do detetive Kojak que chupava pirulito? Os dois, sem um fio de cabelo na cabeça! E charmosíssimos. Másculos. Até as modelos perceberam o charme da calva e fizeram raspar os seus cabelos. Desfilam na nudez simples de uma cabeça lisa, destituída de pelos. Se os homens fossem coerentes eles usariam suas lâminas de barbear não só para raspar os resíduos trogloditas da face como também para raspar os mesmos resíduos que teimam em crescer na cabeça.
Assim, só posso proclamar com orgulho e sem usar boné pra esconder: “Sou careca e sou feliz!” E quero dizer pra minha neta: não se apoquente. Seu avô é careca é conta estórias… Não é bom? Você preferiria que seu avô fosse cabeludo e não contasse estórias?
Rubem Alves (postado por tina)
Depois de postar este texto, voltei à pesquisa do hino do Sinésio de Cirene. Se encontrá-lo, vou publicá-lo no Teologia e Liturgia Luterana.

11 de fev de 2014

O Imponderável - Fabrício Carpinejar


Fabrício Carpinejar

Nunca sei o que pode ocorrer por mais que tenha antecipado situações.

Já me acostumei com a visita do Imponderável em minha vida.

Ele entra sem permissão, sem licença e muda a ordem dos acontecimentos.

Tenho certeza que você também conhece. Ele não deixa nenhum lar desassistido. Não compra ingressos, não paga estacionamento. Para qualquer evento, usa carteiraço. Entra em casamento, em velório, em aniversário com a maior cara-de-pau.

Quando treinamos a realidade, não programamos a sua presença indiscutível.

É ele que manda e decide. Somos coadjuvantes de seus repentes. Você teve que lidar com sua invasão fantasmagórica no vestibular quando se via afiado e surgia o branco, no momento de atravessar uma festa para chamar uma colega para dançar e alguém se antecipava.

O Imponderável tem preferência por quem se prepara antes para um teste emocional. Sua diversão é destruir nossos roteiros e planejamentos, mostrar que não somos onipotentes, que não há como cantar vitória no primeiro tempo.

É uma criança grande e desengonçada, com humor sarcástico de um velho ranzinza.

Ele não tem amigos. Não tem família. É solitário e ajuda para o bem ou para o mal.

É como uma versão ateísta do Espírito Santo.

Vou me separar, peço a benção aos meus amigos, memorizo o que direi, o tom, o encadeamento das explicações, sinto-me pronto e indestrutível, mas quando me encontro com a esposa, vem também o Imponderável. Ela está cheirosa, linda, suave, nada raivosa como os últimos dias, e cedo aos encantos de sua doçura, fico subitamente excitado e acabo me reconciliando de novo.

Vou pedir uma mulher em namoro, depois de dois meses de saídas e flertes. Compro um par de brincos, ensaio o discurso, escolho o restaurante, encaminho champanhe ao gelo, até que o Imponderável aparece e ela esbarra em seu ex antes de sentar e eles se abraçam de um jeito sensual e duvidoso que amargam os meus planos. Não digo coisa alguma do que sinto e não mais nos revemos.        

Vou participar de uma entrevista de emprego, é meu grande momento profissional, nasci para fazer aquilo, fui aprovado com alta nota no teste de conhecimentos gerais, agora é questão de um detalhe, só não responder nenhuma doideira e se revelar minimamente equilibrado. Mas, ao entrar na sala do RH, o Imponderável caminha ao meu lado. O entrevistador é um colega da infância, o Bola, meu alvo predileto de bullying.

O Imponderável nos devolve à humildade.

Amigo morre precocemente, divórcio é deflagrado na mais alta alegria, paz entre inimigos mortais é sacramentada do acaso: tudo tem o dedo do Imponderável. O impossível se transforma em possível, e o possível se torna um fracasso.

O que nos resta é perceber que a vida é muito curta para ter razão, mas vale é ter amor e perder a razão. Aquele que ama improvisa.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 11/2/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 17701
Fonte: Blog do Carpinejar

28 de ago de 2013

Eu tenho um Sonho

EU TENHO UM SONHO

Martin Luther King
(1929-1968)

Discurso de Martin Luther King, "Eu tenho um sonho", em 28 de agosto de 1963, na enorme concentração pelos direitos civis de afro-americanos, em Washington, DC.



"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de seus cativeiros.

Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação. Cem anos depois, o Negro vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade.

Hoje é óbvio que aquela América não apresentou esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou marcado com "fundos insuficientes". Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível. Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça. Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo. Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia. Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar aos negócios de sempre.

Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês estarão satisfeitos?"

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de desespero.

Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos.

Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre.

Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado: "Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos, De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!" ("My country, 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring.")

E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.

Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi. Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho Negro Spiritual: "Finalmente livres! finalmente livres! Obrigado Deus Todo-poderoso, nós somos finalmente livres." ("Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!")

5 de ago de 2013

A Visita

Bela canção do músico capixaba Lúcio da Silva Souza, ou simplesmente SILVA:

Vou lhe fazer uma visita
Mas não fique assim, aflita
Que eu não sou de reparar

Não precisa de banquete
Nem preocupe com enfeite
Não me vá empetecar

E os velhos discos de bolero
Tô levando pois eu quero
Lhe ensinar como dançar

E dizer-lhe ao pé do ouvido
Com um tom meio atrevido:
"dois pra lá e dois pra cá"

Vou lhe fazer outra visita
Pra lhe ver, assim, bonita
Ir correndo ao portão

Decorou o tal bolero?
Vem cantando em tom sincero
Sequestrando minha atenção

A radiola está no jeito
Lhe aproximo do meu peito
Repetindo a tentação

"são dois pra lá e dois pra cá"
Você vai ver no que dá
Cantar de novo esse refrão

Olha pra junto dos meus pés
Você consegue reparar
No tempo de nós dois
E ver que assim como se dança
O passo é feito de esperança
Espero amar depois


31 de jul de 2013

Dez mitos sobre introvertidos


A lista abaixo foi inspirada pelo livro "The Introvert Advantage: How to Thrive in an Extrovert World", de Marti Laney.

Mito # 1 – Os introvertidos não gostam de falar.
Isso não é verdade. Introvertidos simplesmente não falam a menos que tenham algo a dizer. Eles odeiam conversa fiada. Converse com o introvertido sobre um assunto que os interesse, e eles não vão calar a boca por alguns dias.

Mito # 2 – Os introvertidos são tímidos.
Timidez não tem nada a ver com ser um introvertido. Introvertidos não são necessariamente amedrontados por pessoas. O que eles precisam é um motivo para interagir. Eles não interagem em prol da interação. Se você quiser falar com um introvertido, basta começar a falar. Não se preocupe em ser educado.

Mito # 3 – Os introvertidos são rudes.
Introvertidos muitas vezes não vêem uma razão para rodeios com gentilezas social. Eles querem todos ser apenas reais e honestos. Infelizmente, isto não é aceitável na maioria das situações sociais, de modo que introvertidos podem sentir muita pressão para se ajustar, o que se torna muito cansativo.

Mito # 4 – Os introvertidos não gostam de pessoas.
Pelo contrário, introvertidos valorizam intensamente os poucos amigos que eles têm. Podem contar seus amigos mais próximos de um lado. Se você tiver sorte o suficiente de um introvertido considerá-lo um amigo, você provavelmente tem um aliado leal para a vida. Uma vez que você ganhou o seu respeito como sendo uma pessoa de substância, você está dentro.

Mito # 5 – Os introvertidos não gostam de sair em público.
Absurdo. Introvertidos só não gosto de sair em público tanto quanto os extrovertidos. Eles também gostam de evitar as complicações que estão envolvidos em atividades públicas. Eles absorvem dados e experiências muito rapidamente, e como resultado, não precisam estar lá por muito tempo, e normalmente estão prontos para ir pra casa e processar essas experiências mais cedo do que os extrovertidos. Na verdade, a recarga é absolutamente crucial para introvertidos.

Mito # 6 – Os introvertidos sempre querem estar sozinho.
Introvertidos são perfeitamente confortáveis com seus próprios pensamentos. Eles pensam muito. Eles devaneiam. Eles gostam de ter problemas para trabalhar, quebra-cabeças para resolver. Mas eles também podem ficar incrivelmente solitários se não tiverem alguém para compartilhar suas descobertas. Eles anseiam por uma conexão autêntica e sincera com UMA PESSOA de cada vez.

Mito # 7 – Os introvertidos são estranhos.
Introvertidos são frequentemente individualistas. Eles não seguem a multidão. Eles preferem ser valorizadas por suas novas formas de vida. Eles pensam por si mesmos e por causa disso, eles muitas vezes desafiam a norma. Eles não tomam a maioria das decisões baseadas no que é popular ou moda.

Mito # 8 – Os introvertidos são nerds desinteressados.
Introvertidos são pessoas que basicamente olham para dentro, prestando atenção aos seus pensamentos e emoções. Não é que eles são incapazes de prestar atenção ao que está acontecendo ao seu redor, é só que o seu mundo interior é muito mais estimulante e gratificante para eles.

Mito # 9 – Os introvertidos não sabem como relaxar e se divertir.
Introvertidos normalmente relaxam em casa ou na natureza, e não em locais públicos movimentados. Introvertidos não são candidatos a emoção ou viciados em adrenalina. Se houver muita conversa e barulho acontecendo, eles se fecham. Seus cérebros são muito sensíveis ao neurotransmissor chamado dopamina. Introvertidos e extrovertidos têm diferentes dominante neuro-vias.

Mito # 10 – Os introvertidos podem se consertar e tornarem-se extrovertidos.
Um mundo sem introvertidos seria um mundo com poucos cientistas, músicos, artistas, poetas, cineastas, médicos, matemáticos, escritores e filósofos. Dito isto, há ainda uma abundância de técnicas que as pessoas extrovertidas podem aprender, a fim de interagir com pessoas introvertidas. (Sim, eu inverti estes dois termos com o propósito de mostrar a você como nossa sociedade é tendenciosa.) Introvertidos não podem “corrigir-se” e merecem respeito pelo seu temperamento natural e as contribuições para a raça humana. De fato, um estudo (Silverman, 1986) mostrou que o percentual de introvertidos aumenta com QI.

Pode ser terrivelmente destrutivo para um introvertido negar-se a fim de se dar bem em um mundo extrovertido-dominantes. Como outras minorias, introvertidos pode acabar odiando a si mesmos e os outros por causa das diferenças.


25 de mar de 2013

Celulares e correntes douradas


Quem fala ao celular em local público sentencia os demais a compartilhar o que ninguém merece

MARCOS ROLIM*
marcos@rolim.com.br

A cena é banal. Sala de espera do banco, várias pessoas aguardando pelo atendimento. Um cliente dirige-se a um balcão lateral, à procura de alguns envelopes, quando seu celular toca, estridentemente. Ele atende e mantém conversação sobre uma festa. O colóquio envolve os engradados de cerveja necessários e quem ficou de comprar a carne, entre outros temas relevantes. O homem usa uma corrente dourada que aparece sob a camisa desabotoada e fala alto. Diz "ceva" ao invés de cerveja. Fico me perguntando o que eu tenho a ver com as "cevas" ou com a costela.
Pergunto-me muito. Nem sempre obtenho respostas. Certas dúvidas me acompanham por meses. Elas ficam em um canto, hibernando, até que, súbito, pulam faceiras diante da impressão de que encontraram uma resposta. Houve uma época em que se podia ler ou descansar em um ônibus, por exemplo. Isto foi antes do celular. Hoje, há uma tortura nos ônibus, porque as pessoas conversam todo o tempo aos telefones e sobre coisas tão complexas e interessantes como "cevas". Devemos proibi-las?
Há avanços, claro. Aparentemente é menor o número de pessoas que atendem o telefone durante sessões de cinema. Em compensação, muitas seguem consultando e brincando com suas maquininhas, produzindo, em uma sala escura, fachos de luz sobre os olhos dos que estão sentados atrás delas.
Em cada um destes comportamentos, o que preside a conduta de quem manipula o aparelho é a total desconsideração pelos outros. Quem fala ao celular em local público sentencia os demais a compartilhar o que ninguém merece.
Em um texto célebre intitulado "Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos", Benjamin Constant sustenta que, para os antigos (Roma, Esparta, Atenas), a liberdade era o mesmo que liberdade política. Alguém só poderia ser considerado livre na medida em que tomasse parte do debate político e pudesse, assim, ser protagonista nos temas que, por definição, interessam a todos. Já para os modernos, a liberdade passou a ser, cada vez mais, a liberdade individual, o direito de fazer aquilo que a lei não proíba etc.
Se um ateniense dos séculos V e VI  A.C. nos visitasse, concluiria que somos todos escravos; porque submetidos a decisões políticas tomadas por outrem. Em compensação, se fôssemos transportados para qualquer das sociedades clássicas, nos sentiríamos imobilizados em um mundo onde tudo estava definido por valores comunitários e onde, a rigor, a própria noção de "indivíduo" era desconhecida.  Ganhamos muito com a liberdade individual, claro. Só o que não é evidente é o que perdemos com o fim da liberdade política _ no sentido clássico.
No caso brasileiro, a perda é agravada pela incultura disseminada _ inclusive entre os que tiveram acesso à educação _ e por um individualismo cada vez mais radical que tem produzido consumidores, mas não cidadãos. O brasileiro típico detesta política. Muitos, inclusive, assumem o desinteresse pelas questões públicas e zombam dos que se dedicam a elas por vocação. Os resultados são cada vez mais claros e assustadores. Renan Calheiros e Marco Feliciano fazem parte do pacote. Acho que os celulares e as correntes douradas também.

* Jornalista

Artigo publicado originalmente em Opinião ZH em 24 de março de 2013.

24 de mar de 2013

Combate às drogas


Drauzio Varella

No combate às drogas ilícitas vamos de mal a bem pior. Até quando insistiremos nesse autoengano policialesco-repressivo-ridículo que corrompe a sociedade e abarrota as cadeias do país?

Faço essa observação, leitor, porque será votado na Câmara um projeto de lei que endurece ainda mais as penas impostas a usuários e traficantes.

Em primeiro lugar, não sejamos ingênuos, a linha que separa essas duas categorias é para lá de nebulosa: quem usa, trafica. O universitário de família privilegiada compra droga só para ele? O menino da periferia resiste à tentação de vender uma parcela da encomenda, para diminuir o custo de sua parte? Como amealha recursos o craqueiro da sarjeta que tem por princípio não roubar nem pedir esmola?

Nas ruas, quem decide como enquadrar o portador de droga apanhado em flagrante é o policial. Entre o universitário branco de boas posses e o mulato do Capão Redondo você consegue adivinhar quem irá preso como traficante?

Embora considerada tolerante, a legislação vigente desde 2006 agravou a situação das cadeias. Naquele ano, foram presos por tráfico 47 mil pessoas, que correspondiam a 14% do total de presos no país. Em 2010, esse número saltou para 106 mil, ou 21% do total.

O projeto a ser votado propõe várias ações controversas, para dizer o mínimo.

Entre elas, a ênfase descabida na internação compulsória, enquanto os estudos mostram que o acompanhamento ambulatorial é a estratégia mais importante para a reinserção familiar e social dos dependentes. Isolá-los só se justifica nos casos extremos em que existe risco de morte.

O projeto propõe uma classificação surrealista das drogas de acordo com sua capacidade de causar dependência, segundo a qual alguém surpreendido com crack seria condenado a pena mais longa do que se carregasse maconha.

No passado, os americanos adotaram lei semelhante, que condenava o vendedor de crack a passar mais tempo na cadeia do que o traficante de cocaína em pó. As contestações judiciais e os problemas práticos foram de tal ordem que a lei foi revogada, há mais de dez anos.

O projeto reserva atenção especial à criação de um incrível "cadastro nacional de usuários". No artigo 16, afirma que "instituições de ensino deverão preencher ficha de notificação, suspeita ou confirmação de uso e dependência de drogas e substâncias entorpecentes para fins de registro, estudo de caso e adoção de medidas legais".

Nossos professores serão recrutados como delatores dos alunos para os quais deveriam servir de exemplo? Os colégios mais caros entregarão os meninos que fumam maconha para inclusão no cadastro nacional e "adoção de medidas legais"?

O mais grave, entretanto, é o endurecimento das penas. Segundo a lei atual, a pena mínima para o fornecedor clássico é de cinco anos; o novo projeto propõe oito anos. Os que forem apanhados com equipamento utilizado no preparo de drogas, apenados com três a dez anos na legislação de hoje, passariam a cumprir de oito a 20 anos. As penas atuais de dois a seis anos dos informantes que trabalham para grupos de traficantes, seriam ampliadas para seis a dez anos. E por aí vai.

Enquanto um assassino covarde responde ao processo em liberdade, quem é preso com droga o faz em regime fechado.

Não quero entrar na discussão de quanto tempo um traficante merece passar na cadeia, estou interessado em saber quanto vamos gastar para enjaulá-los.

Vejam o exemplo do Estado de São Paulo, que conta com 150 penitenciárias e 171 cadeias públicas. Apenas para reduzir a absurda superlotação atual deveríamos construir mais 93 penitenciárias.

Se levarmos em conta que são efetuadas cerca de 120 prisões por dia, enquanto o número de libertações diárias é de apenas cem, concluímos que é necessário construir dois presídios novos a cada três meses.


Drauzio Varella é médico cancerologista. Por 20 anos dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Foi um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em presídios, ao qual se dedica ainda hoje. É autor do livro "Estação Carandiru" (Companhia das Letras). Escreve aos sábados, a cada duas semanas, na versão impressa de "Ilustrada".

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 23/03/2013.