25 de mar de 2017

A carne é fraca


As notícias da mais nova operação desencadeada pela Polícia Federal causaram um impacto estrondoso, trazendo à tona o escândalo da comercialização de carne podre, adulterada ou contaminada com bactérias. Todo esse esquema assustador era mantido com propinas pagas àqueles que legislam e fiscalizam.

A partir daí vieram uma enxurrada de outras notícias desagradáveis: as autoridades de vigilância sanitária já encontraram paçoca com substâncias tóxica, arroz com excremento de roedores, canela em pó e extrato de tomate com pelos de roedor. Impossível não ficar com a confiança abalada diante destas revelações.

A confiança sempre foi um elemento facilitador das trocas e do comércio, em que as partes envolvidas buscam benefício mútuo. A confiança e boa-fé requer honestidade e sinceridade na compra e venda de um produto de qualidade por um preço justo. No entanto, em cada época e lugar houveram pessoas gananciosas que enganaram, trapacearam e roubaram para ganhar dinheiro fácil à custa da boa-fé e confiança alheia.

Oito séculos antes de Cristo, o profeta Amós declarava que o Deus justo estava com raiva daqueles que comercializavam “o trigo, diminuindo a medida, aumentando o preço, enganando com balanças desonestas e comprando o pobre com prata e o necessitado por um par de sandálias, vendendo até palha com o trigo” (Am 8.5-6).

Mesmo com tanto progresso humano, a ganância continua tão típica e tão endêmica também em nosso tempo. De acordo com a Polícia Federal, a prioridade das empresas frigoríficas era o “o capitalismo, o mercado, não a saúde pública”. As autoridades estão lamentando o prejuízo de valores “estratosféricos” e concentrando esforços em cuidar do mercado.

Mas é bom lembrar que fraca é a nossa carne, que nossas mentiras, fraudes e ganâncias cotidianas, por mais “pequenas” e “insignificantes” que as consideremos, também fazem mal às outras pessoas, criadas a imagem e semelhança de Deus. É uma ofensa a Deus qualquer mal que fazemos ao nosso próximo. No tempo do profeta, Deus disse que nunca iria esquecer o que eles fizeram de mal e perverso com seus semelhantes e por isso iriam sofrer consequências.

A mensagem cristã neste tempo de Quaresma lembra que, se por um lado podemos sofrer as consequências terrenas e eternas do mal que praticamos, por outro lado somos perdoados pelo Cristo que nos ama e apaga o mal que fizemos, mas não a memória que Deus. O apóstolo João escreve assim: “Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 Jo 2.1). Para curar em cada um de nós a moléstia que arrastou a humanidade para a vida indigna e gananciosa, Cristo nos é oferecido como o remédio de Deus. Esta é uma boa notícia para todos sobre os quais recai o peso da mentira e da ganância.

A palavra mais evocada na Quaresma é arrependimento. Se nossa carne fraca experimentar uma transformação genuína (não uma maquiagem) podemos gostar das pessoas de maneira real e concreta e não pelos lucros que elas podem render.

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2500 – 24 a 30/03/2017 (Itararé, SP)

10 de mar de 2017

Abençoa, Senhor, as mulheres!


A comemoração do Dia Internacional da Mulher em 8 de março aponta para diferentes origens históricas. O que todas estas histórias têm em comum é a luta de mulheres operárias por melhores condições de trabalho. Com o passar do tempo esta data foi sendo perfumada e adoçada com flores e bombons, mas celebrá-la significa trazer à memória as lutas e conquistas de um universo feminino nem sempre reconhecido, quase sempre ignorado.

É enorme a brilhante constelação de mulheres batalhadoras e piedosas de todas as épocas e lugares, sobre as quais graciosamente repousa a luz da verdade. Poderíamos apontar, como estrelas de primeira grandeza, a virgem Maria, de cuja carne e sangue o eterno Deus tornou-se verdadeiro homem; a respeitável Ana, cuja avançada idade não a impediu de reconhecer a Glória Excelsa envolta em trajes de bebê naquele Templo; as consagradas “Marias”, cujo serviço alegre e abnegado a um Mestre sem-teto foi recompensado com o primeiro vislumbre do Salvador ressuscitado; a hospitaleira Lídia, a qual “o Senhor lhe abriu o coração”, bem como as “não poucas mulheres distintas” de Tessalônica, receptoras atenciosas da Palavra da Salvação.

No entanto, igualmente reluzentes nesta constelação, e não menos devotas e batalhadoras, são todas as mulheres com as quais convivemos em nossos lares, trabalhos e igrejas, que lutam por melhores condições de vida para si e suas famílias. Com esta Bênção das Mulheres, do livro de Jane Dwyer e Tea Frigerio, Palavra na Vida 205 (Centro de Estudos Bíblicos), desejamos que sejam sempre concedidas a todas as mulheres a abundância das graças divinas:

Que o Deus de Eva te ensine a discernir entre o bem e o mal.
Que o Deus de Agar te console e a todas as mulheres que se sentem sozinhas no deserto da vida.
Que o Deus de Miriam te faça instrumento de libertação.
Que o Deus de Débora te conceda a audácia e a coragem de lutar pela justiça
Que o Deus de Ester te conceda fortaleza para enfrentar os poderosos em favor do povo exilado.
Que o Deus de Maria de Nazaré abra teu coração para que possas receber com alegria a semente Daquele que vive para sempre.
Que Jesus, que falou à Samaritana tudo o que ela tinha feito, te faça evangelizadora do teu povo.
Jesus, que curou a mulher encurvada, te libere juntamente com todas as mulheres oprimidas pelas tradições religiosas e culturais.
Jesus, que deixou ungir a cabeça por uma mulher, te conceda ser profetiza para reconhece-lo como Senhor e Messias.
Jesus, o amigo de Maria Madalena, te envie e, como sua apóstola, possas anunciar a mensagem de libertação a todos os povos.
Que o Espírito te consagre para que, em Jesus Cristo, possas anunciar Boas-Notícias aos pobres e a liberdade aos presos.
Em nome de Deus que é, que era e que sempre será conosco e com seu povo. Amém.

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2498 – 10 a 16/03/2017 (Itararé, SP)

24 de fev de 2017

O sentido da vida está na morte


Na década de 80 e 90 o punk rock fazia a cabeça da molecada que queria contrapor-se aos problemas sociais de uma forma rebelde e revolucionária. Uma banda paulistana chamada Olho Seco vociferava assim o niilismo típico de um movimento que afirmava a morte da esperança e do sentido da vida: “Esperança explodiu em mais de mil pedaços. Meu futuro se foi com ela, me deixou em frangalhos. Me sepultem, me enterrem. Estou morto! Morto!” Muitas vezes é assim que nos sentimos: mortos! Não uma morte real, mas igualmente paralisante, quando a vida perde o sentido e a esperança e os sonhos se desfazem como fumaça. Então, nos assemelhamos a “mortos-vivos”, cobertos pela sombria presença de um vazio existencial.

Certo dia, Jesus encarou a cruel realidade da morte de seu amigo Lázaro, que estava na sepultura há quatro dias e já cheirava mal. A humanidade vivencia o estado de Lázaro, morta e cheirando mal, podre em seu interior. Isto fica evidente no sofrimento, na dor, na tristeza, no ódio, enfim, nas tragédias pessoais que conhecemos muito bem e, que quando nos atingem de maneira implacável, revelam toda a fragilidade e impotência de nosso ser terreno diante de males mortíferos.

Com a Quarta-feira de Cinzas, inicia a Quaresma, período de quarenta dias em que a igreja cristã reflete a paixão e morte de Jesus. É também tempo propício para contemplar a finitude e transitoriedade da nossa vida humana. Ao invés de mantê-la distante, a consciência da morte deveria nos impelir a um regime de completa vitalidade: aproveitar intensamente e melhor cada oportunidade preciosa desta vida passageira, amar e ser solidário com nosso próximo, especialmente os que sofrem, e ajudar os que não têm “onde cair morto”.

O choro de Jesus, diante da morte de seu amigo Lázaro, traduz a compaixão de alguém que partilhou a mesma sensação de morte que experimentamos em vida. Ele ainda sofreu literalmente a nossa morte, mas a venceu quando ressuscitou. Para Lázaro reviver e andar, Jesus removeu suas ataduras. Sucede o mesmo conosco: Cristo remove as ataduras da morte e da maldade, de forma que espíritos “malcheirosos” que somos, experimentam a dádiva de viver e amar. O apóstolo Paulo diz: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2.1).

Se os problemas e amarguras têm o poder de nos mortificar a cada dia, por outro lado, eles são a matéria na qual Deus está trabalhando a vida neste vale de lágrimas. Mesmo sem darmos conta, todo dia estamos sobrevivendo às pequenas mortes (o mal em mim e nos outros). A vitória da vida no dia a dia nos ensina aquilo que os antigos cristãos já sabiam, que a morte ao fim da vida terrena é o “vere dies natalis”, o verdadeiro nascimento do ser humano. A vida já começou em nossa concepção, mas na hora de nossa morte, o Cristo ressuscitado quer nos dirigir o mesmo apelo para uma vida plena e verdadeira que um dia ele fez ao ladrão à sua direita na cruz: “hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43).

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2497 - 23 a 28/02/2017 (Itararé, SP)

17 de fev de 2017

Oremos pelos que nos maltratam

Sermão do Monte, por Gisele Bauche
No célebre Sermão da Montanha, Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5.43-44). Tarefas árduas para tempos difíceis!

Em Os irmãos Karamazov, romance de Dostoievski, um dos personagens questiona:   “Jamais pude compreender como se pode amar seu próximo. É exatamente aos nossos próximos que é impossível amar, a meu ver só os longínquos se ama. Para que se possa amar uma pessoa é preciso que esta se esconda porque, mal essa pessoa mostra a cara, o amor desaparece.” O que dizer dos inimigos então?
As palavras de Jesus são tão contrárias ao espírito humano, cujas ações são quase sempre baseadas no interesse próprio e na exploração de seus semelhantes. O ser humano dominado por uma natureza pecadora, é desejoso de amor mas não consegue ter verdadeiro amor ao próximo. O filósofo Luiz Felipe Pondé argumenta que mesmo quem não acredita que o pecado de Adão e Eva arrastaram a humanidade a uma vontade orgulhosa, violenta e transgressora, há de convir que essa herança maldita tem consistência empírica, suas consequências são visíveis.

Tal inclinação humana para a maldade e o desamor explica a origem da lei do talião, um dos códigos legais mais antigos da civilização humana. O princípio “olho por olho, dente por dente” visava evitar a violência, o abuso na punição e a vingança excessiva. O ser humano é exagerado e desproporcional no tratamento às ofensas que são cometidas contra ele. Vingança, ódio e falta de amor estão deteriorando os relacionamentos humanos desde os primórdios.

Se a lei do talião inaugurou a era da justiça, Jesus Cristo inaugurou um tempo de amor. Jesus ensina que o caminho do Reino do céu é contrário à nossa natureza: é oferecer a outra face, caminhar a milha extra, dar ou emprestar a quem pedir, amar o inimigo e orar pelos que infligem o mal. As palavras de Jesus falam mais dele próprio do que sobre nós. Afinal, Jesus demonstrou em palavras e ações a máxima pedagógica: “Uma pessoa pode ensinar o que sabe, mas pode reproduzir apenas o que ela é”. Ele é aquele que “foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca” e “levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu” (Is 53.7,12).

No fundo, Jesus queria dizer que estamos no caminho do Reino não apenas por causa do que ele ensinou, mas especialmente por causa do que ele fez. Deus derramou seu amor em nossos corações (Rm 5.5) e, para que seu amor possa fluir em nosso meio, nos deu o nosso próximo, amigos e família, para que sejamos amados, tenhamos a quem amar e experimentemos o céu já nesta vida. Mas nesta vida também vamos nos deparar com pessoas que podem ser maldosas, até aquelas que beiram à psicopatia, que têm gosto pela maldade. Oremos por elas! Olhando para o que Jesus fez por nós, sabemos que ele escolheu amar a todos, indistintamente!

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2496 - 17 a 22/02/2017 (Itararé, SP)

14 de fev de 2017

Valentine's Day


Sobre a data de hoje no livro Amor: Sobre a arte de viver (Zahar, 2015), do historiador da cultura Roman Krznaric

"O homem imortalizado como são Valentim ficaria chocado ao descobrir que se tornou o santo padroeiro do amor romântico. Sua história é obscura, mas parece que foi um padre que viveu perto de Roma, no século III, e foi executado por suas crenças cristãs. Realizou-se pela primeira vez uma festa em seu nome em 496, e durante a maior parte do milênio seguinte ele foi venerado pelo poder de curar doentes e aleijados. No fim da Idade Média, sua fama era de ser o santo padroeiro dos epilépticos, especialmente na Alemanha e na Europa Central, onde obras de arte do período mostram-no curando crianças de seus ataques convulsivos. Ele nada teve a ver com o amor até 1382, quando Chaucer criou um poema descrevendo o dia de são Valentim, celebrado todo mês de fevereiro, como uma ocasião em que as aves – e as pessoas – deveriam escolher seus companheiros. Desse momento em diante, sua reputação como curandeiro começou a desaparecer, e o dia que lhe é dedicado todos os anos transformou-se numa ocasião para os amantes enviarem versos de amor uns aos outros e para os jovens das aldeias se divertirem com jogos de amor engraçados. O Dia de São Valentim foi de novo transformado, no século XIX, quando se tornou uma extravagância comercial alimentada pelo surgimento da indústria dos cartões comemorativos e o aparecimento do mercado de massa. Um furor em torno desse dia irrompeu nos Estados Unidos, nos anos 1840: menos de duas décadas depois, as lojas vendiam, a cada ano, perto de 3 milhões de cartões, livrinhos de poemas e outras bugigangas associadas ao amor. Hoje, 141 milhões de cartões são trocados no Dia de São Valentim, no mundo todo, e 11% dos pares de namorados dos Estados Unidos escolhem ficar noivos no dia 14 de fevereiro.

A maneira como são Valentim foi convertido, de arauto do caridoso amor cristão em símbolo da paixão romântica, suscita a questão mais ampla de como as atitudes em relação ao amor mudaram ao longo dos séculos. Que significava amor no mundo antigo, ou durante a idade cavalheiresca de Chaucer? Como o ideal do amor romântico se desenvolveu e moldou o que agora esperamos de um relacionamento? São questões desse tipo que teriam intrigado o nobre francês François de La Rochefoucauld, que proclamou no século XVII: “Poucas pessoas se enamorariam se nunca tivessem ouvido falar disso.” Ele compreendia que nossas ideias sobre o amor, pelo menos em parte, são invenções da cultura e da história.

A maioria de nós experimentou tanto os prazeres quanto as dores do amor. Vale lembrar o desejo ardente e o êxtase compartilhado de uma primeira aventura amorosa, ou de nos ter consolado na segurança de um relacionamento duradouro. No entanto, também sofremos com os sentimentos de ciúme e a solidão da rejeição, ou nos esforçamos para fazer um casamento florescer e perdurar.
Podemos lidar com essas dificuldades do amor – e acentuar suas alegrias – compreendendo a significação de duas grandes tragédias na história das emoções. A primeira é que perdemos o conhecimento das diferentes variedades de amor que existiam no passado, especialmente aquelas familiares aos gregos antigos, que sabiam que o amor podia ser descoberto não só com um parceiro sexual, mas também em amizades, em meio a estranhos e com eles mesmos. A segunda tragédia é que, no curso dos últimos mil anos, essas variedades foram de tal modo incorporadas numa noção mítica de amor romântico que passamos a acreditar que todas se reúnem em uma só pessoa, uma alma gêmea. Podemos escapar dos limites dessa herança procurando amor fora do domínio dos afetos românticos e cultivando suas muitas formas. Assim, como deveríamos iniciar essa jornada pela história do amor? Com uma xícara de café, claro."

10 de fev de 2017

Tempestade de hostilidade e ódio


Eneida é um poema épico escrito por Virgílio, que narra a origem de Roma através das façanhas do herói troiano Eneias. Havendo escapado da destruição de Troia pelos gregos, Eneias tem nas suas mãos a missão de encontrar a “nova Troia”, a futura e gloriosa Roma. A lenda conta que na viagem, os navios são atingidos por uma violenta tempestade provocada por Éolo, o deus do vento (daí a palavra eólico). O poema de Virgílio em português, traduzido por Carlos Alberto Nunes, narra como Eneias tem sua vida preservada:
Como por vezes ocorre em cidades de muitos vizinhos,
quando rebenta revolta e dispara o povinho sem brio,
já voam pedras e fachos, as armas a luta improvisa;
mas, se de súbito surge um varão de aparência tranquila
e comprovado valor, todos calam e atentos o escutam;
com seu discurso as vontades compõe, o furor dulcificada:
mesma forma cessou o barulho das vagas.
Netuno, o deus do mar, apiedou-se de Eneias e surge para acalmar a tempestade. Ao comparar a ação apaziguadora de Netuno a “um varão de aparência tranquila e comprovado valor” que acalma uma revolta popular com suas palavras, Virgílio enaltece o reinado de Cesar Augusto que trouxe um tempo de relativa paz, conhecida como Pax Romana.

Virgílio escreveu o poema na época em que a República Romana passava por uma “tempestade” de guerras civis. Mas, após derrotar seu rival Marco Antônio na Batalha naval de Actium, Augusto passou a acumular o poder absoluto, tanto político quanto religioso. Da mesma forma que o deus do mar amaina a tempestade, César Augusto apazígua definitivamente as revoltas e Roma experimenta uma nova era de paz e prosperidade.

Tracemos uma comparação com a situação sociopolítica no Brasil. Não estamos numa guerra civil, apesar do inimigo ser muito real e verdadeiro para pessoas inclinadas ao pensamento binário e ideias polarizadas. Entretanto, temos um país violentamente dividido numa batalha sediciosa enervante. Aquilo que os gregos chamavam de epieikeia, a moderação, está naufragando num mar revolto de críticas furiosas e subjetivas. A tempestade de hostilidade e ódio já extravasa das redes sociais para a mesa do jantar. Quem virá nos socorrer nesta tempestade? Se nossa fé não é mito, o nosso “socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 121).

A crise ética em que nosso país está mergulhado é digna de nossa dedicação e oração pela paz e a bênção de Deus. Diante do aborrecimento de pessoas e autoridades injustas, o apóstolo S. Paulo escreve aos cristãos de Roma: “Façam todo o possível para viver em paz com todos” (Rm 12.18). E aconselha seu discípulo Timóteo: “Recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.1-4).

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2495 - 10 a 16/02/2017 (Itararé, SP)

3 de fev de 2017

A lição do rei Canuto


Há 103 anos atrás o então senador Rui Barbosa ocupava a tribuna do Senado para um desabafo que até pouco tempo também estava preso na garganta de muitos cidadãos brasileiros, devido “a falta de penalidade aos criminosos confessos” e “a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso”. Mais de cem anos de República se passaram com muitos políticos agindo como se fossem donos do poder, sem temer o risco de se haver com a justiça terrena e divina. Mas os recentes acontecimentos parecem indicar que, finalmente, as coisas estão mudando.


Tempos atrás, dificilmente se imaginaria que agentes políticos e empresários poderosos seriam réus na Justiça, tampouco presos ou condenados. A sabedoria do rei Salomão é inexorável: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16.18). Muitos estão indo do apogeu à ruína, dos palacetes às celas sem regalias. O escritor Zuenir Ventura, em sua coluna no O Globo (01.02.2017), retrata com espanto a ambição e megalomania de um dos políticos presos: “Os que o conhecem desde pequeno não entendem esse desvio de conduta de um jovem político de sucesso... Que mecanismo psicológico — que compulsão, que impulso insaciável — pode fazer alguém acumular e querer cada vez mais?”

A história de um rei do século 11 ensina uma grande licão àqueles que almejam o poder. O rei Canuto, o Grande, foi um monarca poderoso no seu tempo e senhor do imenso Império do Mar do Norte, que abrangia toda a Inglaterra, Dinamarca, Noruega e partes da atual Suécia. Tempos depois de sua morte, o historiador inglês Henrique de Huntingdon escreveria que o rei Canuto estava no apogeu de seu reinado quando pediu que seu trono fosse colocado na praia e, ao começar a subir a maré, ordenou ao oceano que não penetrasse em seus domínios. Mas a maré continuava a subir, como de costume, sem qualquer reverência por sua realeza. As águas já cobriam suas canelas, quando o rei se afastou, dizendo: “Que todos saibam que o poder dos reis é vão e inútil, que não existe ninguém digno do nome de rei, a não ser Aquele a quem o céu, a terra e o mar obedecem por leis eternas”. Desde então o rei Canuto nunca mais colocou a coroa sobre sua cabeça, dedicando-a ao Rei Todo-poderoso.

Os historiadores consideram Canuto o rei mais eficaz da história anglo-saxônica, por suas ações benevolentes e conciliadoras que trouxeram prosperidade e estabilidade numa era conturbada. Apesar de sua autoridade incontestável, Canuto demonstrou-se um rei devoto e humilde, conduzindo-se de maneira graciosa e magnífica nestes quesitos. Tinha consciência dos limites de seu poder e de seus deveres como governante do povo. A humildade proporciona o contentamento de viver uma vida que, mesmo sendo curta, não será pequena na Terra e ainda será eterna no Céu. É a proposta de Jesus: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5.3).

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2494 - 03 a 09/02/2017 (Itararé, SP)