26 de abr de 2017

Liturgia do Silêncio

Li no Hypeness que os "estudos sugerem que a exposição ao silêncio poderia trazer benefícios à saúde, diminuindo os níveis de estresse e aumentando a sensação de relaxamento. Uma pesquisa de 2006 concluiu inclusive que o silêncio seria mais relaxante do que uma “música relaxante”. Mesmo assim, os estudos sobre o assunto são preliminares e, embora ainda não seja definitivo afirmar que o silêncio faça “bem”, já se sabe que ele ao menos é mais vantajoso em termos de saúde do que a exposição prolongada ao barulho."

Imediatamente me lembrei do saudoso Rubem Alves, que fazia belas reflexões sobre a dádiva do silêncio. Uma vez, transcrevi aqui um texto dele publicado no jornal. Agora recorro a este singelo texto de seu livro Pensamentos que penso quando não estou pensando (Campinas: Papirus, 2007. p. 13-16):
 

Liturgia do Silêncio

Rubem Alves

Muitos anos atrás, passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grands Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio não total, mas, de uma fala mínima. Só falar quando a fala fosse melhorar o silêncio. Isso me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa sem pé nem cabeça com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Fui então informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci. Tenho horror a sermões. Mas me conformei.

O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminada por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U” definiam um espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio. Nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por u vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram.

Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino”. Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para e alimentar de silêncio também. Silêncio tem gosto bom. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência e referiu-se a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Malharmé, “A catedral submersa” que Debussy musicou.

A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar, quem faz mergulho sabe, a boca fica fechada. Os poetas conhecem essa experiência. “Nosso olhar é submarino”, escreveu T.S. Eliot. “Olhamos para cima e vemos a luz que se fratura através de águas inquietas...” Submarino também era o olhar de Cecília Meireles: “(...) e no fundo dessa fria luz marinha nadam meus olhos, dois baços peixes, à procura de mim mesma”. Para mim, Deus é a beleza que se ouve no silêncio.

13 de abr de 2017

Corra ao sepulcro!


 
É assim que o evangelista S. Lucas narra o acontecimento fundamental da fé cristã:

“No primeiro dia da semana, de manhã bem cedo, as mulheres tomaram as especiarias aromáticas que haviam preparado e foram ao sepulcro. Encontraram removida a pedra do sepulcro, mas, quando entraram, não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Ficaram perplexas, sem saber o que fazer. De repente dois homens com roupas que brilhavam como a luz do sol colocaram-se ao lado delas. Amedrontadas, as mulheres baixaram o rosto para o chão, e os homens lhes disseram: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou! Lembrem-se do que ele lhes disse, quando ainda estava com vocês na Galileia: ‘É necessário que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, seja crucificado e ressuscite no terceiro dia’ “. Então se lembraram das suas palavras. Quando voltaram do sepulcro, elas contaram todas estas coisas aos Onze e a todos os outros. As que contaram estas coisas aos apóstolos foram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas. Mas eles não acreditaram nas mulheres; as palavras delas lhes pareciam loucura. Pedro, todavia, levantou-se e correu ao sepulcro.” (Lc 24.1-12 NVI)

Talvez Pedro fosse o mais desconsolado entre os discípulos de Jesus, não só por haver negado seu Senhor, mas pela eternidade que as horas pareciam durar. As trevas daquela primeira Sexta-feira Santa eram tão densas e sombrias. O silêncio daquele Sábado Santo parecia interminável. A chama da esperança estava se extinguindo em seu coração ansioso. Os discípulos, ao ouvirem das mulheres o testemunho da Ressurreição, não acreditaram. Mas Pedro levantou-se e correu ao sepulcro.

Há momentos em nossas vidas em que nos encontramos como Pedro, aflitos pelo sentimento de culpa, pelo isolamento e pela ansiedade. Muitas vezes nos sentimos no escuro, sem saber onde ir ou a quem recorrer. Quantas vezes o silêncio perturbador foi tudo o que encontramos depois de nossas orações? Nestes momentos, tudo aquilo que acreditamos parece não fazer mais sentido. A esperança e a fé se apequenam diante de tantas tribulações. A vida cristã não é aquilo que esperávamos e nossas expectativas são frustradas! É nestes momentos que o Espírito de Deus nos convida para correr ao sepulcro.

Quando as mulheres e Pedro correram ao sepulcro, “então se lembraram das palavras de Jesus” (Lc 24.8). Em outro relato dos Evangelhos, o anjo disse às mulheres: “Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês...” (Mt 28.7). Sim! Jesus está sempre adiante, à nossa frente! Ele excede todas as nossas expectativas e entendimento e nos dá a paz de Deus (Fp 4.7). Talvez tudo o que precisamos fazer agora é também correr para o sepulcro. É nesta experiência que os primeiros discípulos e cristãos de todos tempos buscaram alento, esperança e fé para suas vidas cansadas e desorientadas. No sepulcro vazio você também vai lembrar das palavras de Jesus e das promessas de Deus. Então, dentro de você vai ressuscitar a fé e a esperança! Jesus está à nossa frente cuidando de cada detalhe de nossa vida atribulada neste vale de lágrimas.

Tenha uma abençoada Sexta-feira Santa e uma alegre Páscoa do Senhor!

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2503 – 13 a 20/04/2017 (Itararé, SP)

Domingo de Ramos | O contraste dos triunfos

A imagem superior é um detalhe da pintura de Antoine Charles Horace Vernet (1758-1836) ilustrando o desfile de triunfo do general romano Lúcio Emílio Paulo sobre um carro de ouro. Abaixo, a pintura de Peter Paul Rubens (1577-1640) da Entrada de Cristo em Jerusalém.
 
 Triunfo era uma procissão cerimonial e comemorativa na qual os romanos celebravam suas vitórias e conquistas. Nas imagens: "Um Triunfo Romano" (1905), pintura de Andrew Carrick Gow (1848–1920) e a "Entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos", do artista digital Craig Mullins (nascido em 1964).


 O contraste dos triunfos nas pinturas da Entrada de Alexandre na Babilônia ou Triunfo de Alexandre (1665), por Charles Le Brun (1619–1690) e da Entrada de Cristo em Jerusalém (c. 1800), por Félix Louis Leullier (1811-1882):


Arcos do triunfo foram erguidos pelos imperadores romanos para comemorar suas vitórias. Os primeiros arcos triunfais na República Romana comemoravam a vitória dos generais. No período imperial, o primeiro imperador Cesar Augusto, decretou que apenas imperadores receberiam triunfos, fazendo estes desfiles de vitória passando pelos arcos do triunfo.

Citação sobre a festa do triunfo romano no livro do Frei Alberto Beckhäuser, OFM (Os santos na liturgia: Testemunhas de Cristo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013):

7 de abr de 2017

A maioria nem sempre está com a razão


O Prof. Nilson José Machado, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, diz que “a sensação de conforto resultante de estarmos de acordo com a maioria é simetricamente comparável ao desconforto associado à defesa de posições minoritárias” e que “a influência da maioria nas decisões pessoais parece muito mais emocional do que lógica” (Educação: cidadania, projetos e valores, pág. 143). Nestes tempos de incertezas, discórdias e extremismo nas esferas políticas e sociais, quantas vezes nos deixamos conduzir por uma multidão passional sem a devida reflexão?

A Semana Santa, que tem seu ponto alto na celebração da Páscoa de nosso Senhor, tem início no Domingo de Ramos, recordando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Uma multidão recebeu Jesus como um rei, aclamando “Hosana ao Filho de Davi!” “Bendito é o que vem em nome do Senhor!” “Hosana nas alturas”. A multidão que acolheu Jesus com grande festividade o condenou à morte no fim de semana. A psicologia das massas pode nos fornecer indícios deste comportamento antagônico: em meio à multidão, uma pessoa pode ser encorajada a fazer coisas que não faria se estivesse só. Neste sentido, o Domingo de Ramos pode nos ensinar duas coisas. Primeiro, o comportamento da massa nem sempre é completamente irracional como imaginamos e, de fato, a multidão de Jerusalém estava decepcionada com aquele rei tão humilde e tão vagaroso nas reformas que esperavam. O segundo ensinamento é que a maioria pode estar errada e, de fato, condenaram um inocente à morte.

A qual multidão iremos nos misturar ao longo desta Semana Santa? Vamos com a multidão das redes sociais, que nos encoraja a destilar o ódio, a intolerância e a matar fisicamente e emocionalmente muitos inocentes? Estaremos com a multidão que irão às celebrações da Semana Santa cumprir o hábito ou por desencargo de consciência? Vamos nos misturar à multidão sem compaixão com os sofrimentos e mortes cotidianos que irá se emocionar com a encenação da Paixão de Cristo?

Para estar na multidão com propósitos definidos é preciso, em primeiro lugar, estar só e encontrar-se consigo mesmo. Dietrich Bonhoeffer, pastor e mártir, escreveu: “A pessoa que não suporta a solidão deve tomar cuidado com a comunhão. Ela só causará dano a si mesma e a comunhão. Sozinho estavas diante de Deus quando ele te chamou; sozinho tiveste que seguir o chamado; sozinho tiveste que tomar sobre ti a cruz, lutar e orar; sozinho morrerás e prestarás contas a Deus. Não podes fugir de ti mesmo, pois o próprio Deus te separou.” (Vida em Comunhão, pág. 58)

O poema latino medieval “Salve caput cruentatum”, que é o hino cristão tradicional para este período, diz assim:

Momentos de alegria
e grande bem-estar,
ó meu divino Guia,
eu sinto ao meditar
no que por mim fizeste.
A fim de me redimir
a própria vida deste.
É bom a ti seguir.

Meditar pode nos libertar da influência da maioria e nos proporcionar a dádiva de celebrar a Semana Santa com sinceridade e verdade.

Uma abençoada Semana Santa!

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2502 – 07 a 13/04/2017 (Itararé, SP)

1 de abr de 2017

Morte distante

A propósito do Quinto Domingo na Quaresma, amanhã, - quando muitas igrejas irão refletir sobre a ressurreição de Lázaro, conforme o evangelho de S. João, - urge refletirmos também sobre o medo mais profundo de lidarmos com aquilo que mais nos assusta, e ao mesmo tempo, mais nos humaniza, mais nos torna solidários ao gênero humano, como o próprio Jesus que, diante da morte, chorou (quer sentimento mais humano?). O texto abaixo é a introdução do livro "Morte: Sobre a arte de viver", de Roman Krznaric (Zahar, 2016):

"A morte está mais distante da mente ocidental, hoje, do que em qualquer outro período da história. Isso se deve, em parte, ao impressionante aumento da longevidade em todas as nações industrializadas ao longo do século XX. Se você tivesse nascido na Inglaterra nos anos 1830, provavelmente teria vivido, em média, até os 38 anos; em apenas 150 anos, a expectativa de vida dobrou. Nos Estados Unidos, uma mulher de meia-idade nos anos 1950 tinha 10% de chance de viver para se tornar uma anciã de noventa, número que se elevou agora para quase 30%. Esse enorme salto na longevidade talvez seja a maior revolução social ocorrida na história humana. Em termos de mudanças do cotidiano, nada se compara com o fato de que nossas vidas são décadas mais longas do que eram outrora - nem a invenção da imprensa, ou a elevação dos padrões de vida, ou a extensão do direito de voto, ou o nascimento da internet. Graças aos avanços do conhecimento médico e da saúde pública, desafiamos milênios de evolução e garantimos para nós uma dose extra da droga mais inebriante que a humanidade conhece - a própria existência.
Esse súbito aumento da expectativa de vida, que continua ausente na maior parte do mundo em desenvolvimento, foi acompanhado por um declínio radical da presença pública da morte. O surgimento de uma morte medicalizada, no hospital, e a erosão dos ritos tradicionais de funeral e luto tornaram a morte quase totalmente invisível na sociedade moderna. Agora quase nunca vemos corpos mortos, exceto nas ficções sangrentas dos filmes de terror e de guerra, e a morte tornou-se o último assunto tabu de conversa, a maneira perfeita de criar um silêncio constrangedor num jantar festivo. Como Dorian Gray, a criação de Oscar Wilde cujo sonho era permanecer jovem para sempre, conseguimos empurrar a morte, tanto quanto possível, para um lugar quase irreal no futuro.

Essas mudanças exigem que repensemos nossas atitudes em relação à morte. Enquanto os suplementos de jornal estimulam a se refletir obsessivamente sobre o estilo de vida – se devemos fazer ioga ashtanga ou nos mimosear com um cruzeiro no Mediterrâneo –, creio que deveríamos pensar muito mais aprofundadamente sobre o tema estilo de morte. Refiro-me à arte de envelhecer, enfrentar nossa mortalidade e morrer bem. Só podemos dominar essa arte numa cultura que fale sobre a morte aberta e francamente"

31 de mar de 2017

Verdade

 Poema instigante e maravilhoso do Drummond!

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

Pé na cova e corpo de fora

O Triunfo da Morte (c. 1562), por Pieter Bruegel, o Velho (c. 1525-1569)
Dentre tantos eventos importantes da história, destaco a chamada Peste Negra que, somada a outras pragas, catástrofes sanitárias e guerras, dizimaram boa parte da população da Europa da Idade Média e início da Idade Moderna. A morte era lembrada a todo momento pela peste que assolava cada canto das cidades.

Os cronistas e escritores da época descreveram com riqueza de detalhes o flagelo que, diante de tantos mortos, obrigava à abertura de valas comuns. Do mesmo modo, a pintura artística ilustrava de forma irreverente a morte que não poupava ninguém. Assim, são inúmeras as pinturas de diversos artistas, denominadas de “Dança macabra”, que retratam a impiedade da morte a arrastar para o túmulo pessoas de todos os extratos sociais, desde o camponês até o rei. Era como se todos, indistintamente, vivessem com o pé na cova.

Uma pintura que sempre me chamou a atenção, tanto por seu significado quanto pelos aspectos fantásticos e elementos representados, é “O triunfo da morte” de Pieter Bruegel, nascido no início dos anos 1500, na região onde hoje é a atual Holanda. Esta pintura registra um cenário de extrema desolação e destruição, causados pela batalha do “exército” da morte. É o retrato social de uma época em que nada é capaz de opor resistência ao avanço da falange mortífera.

Os exploradores da desgraça e do sofrimento alheio não são exclusividade de nosso tempo. O temor da morte iminente e o terror das penas do purgatório e do inferno acabaram resultando na exploração religiosa da fé e da crença ingênua das pessoas. Nesta mesma época, vivia um monge que, entristecido, testemunhou não apenas a negação do consolo, mas principalmente as falsas esperanças oferecidas ao povo, tudo sob a condescendência da alta hierarquia religiosa em Roma. Para quem já estava com o pé na cova, eram vendidas as indulgências com a promessa de acesso ao céu e diminuir a permanência no purgatório. Tetzel, um dos maiores vendedores de indulgências da época, dizia: “No momento em que o dinheiro na caixa tinir, do purgatório ao céu salta a alma a seguir.” A história registra estes fatos como o estopim para o grande movimento de Reforma da igreja cristã no século 16.

O monge que se revoltou com esta prática chamava-se Martinho Lutero. Ele sabia que a vida no mundo está sujeita à morte e que dinheiro nenhum resolve nosso problema no plano espiritual. Ele acreditava naquilo que aprendeu lendo as epístolas do apóstolo S. Paulo, de que um cristão batizado está com o pé na cova, mas é um pé só, pois, no mais, já desfruta de vida completa em Cristo, por graça mediante a fé. Vejam o que ele escreveu no ano de 1523:
“O cristão, entretanto, justamente pelo fato de ter-se tornado um cristão, está enfiado na morte e a carrega consigo a toda hora, onde quer que esteja, precisando esperá-la a todo o momento enquanto aqui viver, uma vez que o diabo, o mundo e sua própria carne não lhe dão sossego. Em contrapartida, ele tem a vantagem de já ter saído da sepultura com a perna direita e tem um poderoso assistente que lhe estende a mão, ou seja, seu Senhor Cristo, que, há muito, já saiu, dá-lhe a mão e já o retirou em mais da metade, de modo que não resta mais que o pé esquerdo. Isso, porque o pecado já lhe está perdoado e eliminado, a ira de Deus e o inferno, apagados, ele já vive totalmente em e junto a Cristo e sua parte melhor (que é a alma) participa da vida eterna; por isso, a morte não mais pode segurá-lo nem comprometê-lo, exceto que o resto, a velha pele, carne e sangue precisam decompor-se para, também, renovar-se e, também, poder seguir à alma. No mais, já chegamos totalmente à vida, porque Cristo e minha alma não mais estão na morte.” (Obras Selecionadas de Lutero, vol. 9, pág. 354s)
Abençoado fim de semana a todos!

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2501 – 31/03/2017 (Itararé, SP)