17 de fev de 2017

Oremos pelos que nos maltratam

Sermão do Monte, por Gisele Bauche
No célebre Sermão da Montanha, Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5.43-44). Tarefas árduas para tempos difíceis!

Em Os irmãos Karamazov, romance de Dostoievski, um dos personagens questiona:   “Jamais pude compreender como se pode amar seu próximo. É exatamente aos nossos próximos que é impossível amar, a meu ver só os longínquos se ama. Para que se possa amar uma pessoa é preciso que esta se esconda porque, mal essa pessoa mostra a cara, o amor desaparece.” O que dizer dos inimigos então?
As palavras de Jesus são tão contrárias ao espírito humano, cujas ações são quase sempre baseadas no interesse próprio e na exploração de seus semelhantes. O ser humano dominado por uma natureza pecadora, é desejoso de amor mas não consegue ter verdadeiro amor ao próximo. O filósofo Luiz Felipe Pondé argumenta que mesmo quem não acredita que o pecado de Adão e Eva arrastaram a humanidade a uma vontade orgulhosa, violenta e transgressora, há de convir que essa herança maldita tem consistência empírica, suas consequências são visíveis.

Tal inclinação humana para a maldade e o desamor explica a origem da lei do talião, um dos códigos legais mais antigos da civilização humana. O princípio “olho por olho, dente por dente” visava evitar a violência, o abuso na punição e a vingança excessiva. O ser humano é exagerado e desproporcional no tratamento às ofensas que são cometidas contra ele. Vingança, ódio e falta de amor estão deteriorando os relacionamentos humanos desde os primórdios.

Se a lei do talião inaugurou a era da justiça, Jesus Cristo inaugurou um tempo de amor. Jesus ensina que o caminho do Reino do céu é contrário à nossa natureza: é oferecer a outra face, caminhar a milha extra, dar ou emprestar a quem pedir, amar o inimigo e orar pelos que infligem o mal. As palavras de Jesus falam mais dele próprio do que sobre nós. Afinal, Jesus demonstrou em palavras e ações a máxima pedagógica: “Uma pessoa pode ensinar o que sabe, mas pode reproduzir apenas o que ela é”. Ele é aquele que “foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca” e “levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu” (Is 53.7,12).

No fundo, Jesus queria dizer que estamos no caminho do Reino não apenas por causa do que ele ensinou, mas especialmente por causa do que ele fez. Deus derramou seu amor em nossos corações (Rm 5.5) e, para que seu amor possa fluir em nosso meio, nos deu o nosso próximo, amigos e família, para que sejamos amados, tenhamos a quem amar e experimentemos o céu já nesta vida. Mas nesta vida também vamos nos deparar com pessoas que podem ser maldosas, até aquelas que beiram à psicopatia, que têm gosto pela maldade. Oremos por elas! Olhando para o que Jesus fez por nós, sabemos que ele escolheu amar a todos, indistintamente!

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2496 - 17 a 22/02/2017 (Itararé, SP)

14 de fev de 2017

Valentine's Day


Sobre a data de hoje no livro Amor: Sobre a arte de viver (Zahar, 2015), do historiador da cultura Roman Krznaric

"O homem imortalizado como são Valentim ficaria chocado ao descobrir que se tornou o santo padroeiro do amor romântico. Sua história é obscura, mas parece que foi um padre que viveu perto de Roma, no século III, e foi executado por suas crenças cristãs. Realizou-se pela primeira vez uma festa em seu nome em 496, e durante a maior parte do milênio seguinte ele foi venerado pelo poder de curar doentes e aleijados. No fim da Idade Média, sua fama era de ser o santo padroeiro dos epilépticos, especialmente na Alemanha e na Europa Central, onde obras de arte do período mostram-no curando crianças de seus ataques convulsivos. Ele nada teve a ver com o amor até 1382, quando Chaucer criou um poema descrevendo o dia de são Valentim, celebrado todo mês de fevereiro, como uma ocasião em que as aves – e as pessoas – deveriam escolher seus companheiros. Desse momento em diante, sua reputação como curandeiro começou a desaparecer, e o dia que lhe é dedicado todos os anos transformou-se numa ocasião para os amantes enviarem versos de amor uns aos outros e para os jovens das aldeias se divertirem com jogos de amor engraçados. O Dia de São Valentim foi de novo transformado, no século XIX, quando se tornou uma extravagância comercial alimentada pelo surgimento da indústria dos cartões comemorativos e o aparecimento do mercado de massa. Um furor em torno desse dia irrompeu nos Estados Unidos, nos anos 1840: menos de duas décadas depois, as lojas vendiam, a cada ano, perto de 3 milhões de cartões, livrinhos de poemas e outras bugigangas associadas ao amor. Hoje, 141 milhões de cartões são trocados no Dia de São Valentim, no mundo todo, e 11% dos pares de namorados dos Estados Unidos escolhem ficar noivos no dia 14 de fevereiro.

A maneira como são Valentim foi convertido, de arauto do caridoso amor cristão em símbolo da paixão romântica, suscita a questão mais ampla de como as atitudes em relação ao amor mudaram ao longo dos séculos. Que significava amor no mundo antigo, ou durante a idade cavalheiresca de Chaucer? Como o ideal do amor romântico se desenvolveu e moldou o que agora esperamos de um relacionamento? São questões desse tipo que teriam intrigado o nobre francês François de La Rochefoucauld, que proclamou no século XVII: “Poucas pessoas se enamorariam se nunca tivessem ouvido falar disso.” Ele compreendia que nossas ideias sobre o amor, pelo menos em parte, são invenções da cultura e da história.

A maioria de nós experimentou tanto os prazeres quanto as dores do amor. Vale lembrar o desejo ardente e o êxtase compartilhado de uma primeira aventura amorosa, ou de nos ter consolado na segurança de um relacionamento duradouro. No entanto, também sofremos com os sentimentos de ciúme e a solidão da rejeição, ou nos esforçamos para fazer um casamento florescer e perdurar.
Podemos lidar com essas dificuldades do amor – e acentuar suas alegrias – compreendendo a significação de duas grandes tragédias na história das emoções. A primeira é que perdemos o conhecimento das diferentes variedades de amor que existiam no passado, especialmente aquelas familiares aos gregos antigos, que sabiam que o amor podia ser descoberto não só com um parceiro sexual, mas também em amizades, em meio a estranhos e com eles mesmos. A segunda tragédia é que, no curso dos últimos mil anos, essas variedades foram de tal modo incorporadas numa noção mítica de amor romântico que passamos a acreditar que todas se reúnem em uma só pessoa, uma alma gêmea. Podemos escapar dos limites dessa herança procurando amor fora do domínio dos afetos românticos e cultivando suas muitas formas. Assim, como deveríamos iniciar essa jornada pela história do amor? Com uma xícara de café, claro."

10 de fev de 2017

Tempestade de hostilidade e ódio


Eneida é um poema épico escrito por Virgílio, que narra a origem de Roma através das façanhas do herói troiano Eneias. Havendo escapado da destruição de Troia pelos gregos, Eneias tem nas suas mãos a missão de encontrar a “nova Troia”, a futura e gloriosa Roma. A lenda conta que na viagem, os navios são atingidos por uma violenta tempestade provocada por Éolo, o deus do vento (daí a palavra eólico). O poema de Virgílio em português, traduzido por Carlos Alberto Nunes, narra como Eneias tem sua vida preservada:
Como por vezes ocorre em cidades de muitos vizinhos,
quando rebenta revolta e dispara o povinho sem brio,
já voam pedras e fachos, as armas a luta improvisa;
mas, se de súbito surge um varão de aparência tranquila
e comprovado valor, todos calam e atentos o escutam;
com seu discurso as vontades compõe, o furor dulcificada:
mesma forma cessou o barulho das vagas.
Netuno, o deus do mar, apiedou-se de Eneias e surge para acalmar a tempestade. Ao comparar a ação apaziguadora de Netuno a “um varão de aparência tranquila e comprovado valor” que acalma uma revolta popular com suas palavras, Virgílio enaltece o reinado de Cesar Augusto que trouxe um tempo de relativa paz, conhecida como Pax Romana.

Virgílio escreveu o poema na época em que a República Romana passava por uma “tempestade” de guerras civis. Mas, após derrotar seu rival Marco Antônio na Batalha naval de Actium, Augusto passou a acumular o poder absoluto, tanto político quanto religioso. Da mesma forma que o deus do mar amaina a tempestade, César Augusto apazígua definitivamente as revoltas e Roma experimenta uma nova era de paz e prosperidade.

Tracemos uma comparação com a situação sociopolítica no Brasil. Não estamos numa guerra civil, apesar do inimigo ser muito real e verdadeiro para pessoas inclinadas ao pensamento binário e ideias polarizadas. Entretanto, temos um país violentamente dividido numa batalha sediciosa enervante. Aquilo que os gregos chamavam de epieikeia, a moderação, está naufragando num mar revolto de críticas furiosas e subjetivas. A tempestade de hostilidade e ódio já extravasa das redes sociais para a mesa do jantar. Quem virá nos socorrer nesta tempestade? Se nossa fé não é mito, o nosso “socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 121).

A crise ética em que nosso país está mergulhado é digna de nossa dedicação e oração pela paz e a bênção de Deus. Diante do aborrecimento de pessoas e autoridades injustas, o apóstolo S. Paulo escreve aos cristãos de Roma: “Façam todo o possível para viver em paz com todos” (Rm 12.18). E aconselha seu discípulo Timóteo: “Recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.1-4).

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2495 - 10 a 16/02/2017 (Itararé, SP)

3 de fev de 2017

A lição do rei Canuto


Há 103 anos atrás o então senador Rui Barbosa ocupava a tribuna do Senado para um desabafo que até pouco tempo também estava preso na garganta de muitos cidadãos brasileiros, devido “a falta de penalidade aos criminosos confessos” e “a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso”. Mais de cem anos de República se passaram com muitos políticos agindo como se fossem donos do poder, sem temer o risco de se haver com a justiça terrena e divina. Mas os recentes acontecimentos parecem indicar que, finalmente, as coisas estão mudando.


Tempos atrás, dificilmente se imaginaria que agentes políticos e empresários poderosos seriam réus na Justiça, tampouco presos ou condenados. A sabedoria do rei Salomão é inexorável: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16.18). Muitos estão indo do apogeu à ruína, dos palacetes às celas sem regalias. O escritor Zuenir Ventura, em sua coluna no O Globo (01.02.2017), retrata com espanto a ambição e megalomania de um dos políticos presos: “Os que o conhecem desde pequeno não entendem esse desvio de conduta de um jovem político de sucesso... Que mecanismo psicológico — que compulsão, que impulso insaciável — pode fazer alguém acumular e querer cada vez mais?”

A história de um rei do século 11 ensina uma grande licão àqueles que almejam o poder. O rei Canuto, o Grande, foi um monarca poderoso no seu tempo e senhor do imenso Império do Mar do Norte, que abrangia toda a Inglaterra, Dinamarca, Noruega e partes da atual Suécia. Tempos depois de sua morte, o historiador inglês Henrique de Huntingdon escreveria que o rei Canuto estava no apogeu de seu reinado quando pediu que seu trono fosse colocado na praia e, ao começar a subir a maré, ordenou ao oceano que não penetrasse em seus domínios. Mas a maré continuava a subir, como de costume, sem qualquer reverência por sua realeza. As águas já cobriam suas canelas, quando o rei se afastou, dizendo: “Que todos saibam que o poder dos reis é vão e inútil, que não existe ninguém digno do nome de rei, a não ser Aquele a quem o céu, a terra e o mar obedecem por leis eternas”. Desde então o rei Canuto nunca mais colocou a coroa sobre sua cabeça, dedicando-a ao Rei Todo-poderoso.

Os historiadores consideram Canuto o rei mais eficaz da história anglo-saxônica, por suas ações benevolentes e conciliadoras que trouxeram prosperidade e estabilidade numa era conturbada. Apesar de sua autoridade incontestável, Canuto demonstrou-se um rei devoto e humilde, conduzindo-se de maneira graciosa e magnífica nestes quesitos. Tinha consciência dos limites de seu poder e de seus deveres como governante do povo. A humildade proporciona o contentamento de viver uma vida que, mesmo sendo curta, não será pequena na Terra e ainda será eterna no Céu. É a proposta de Jesus: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mateus 5.3).

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2494 - 03 a 09/02/2017 (Itararé, SP)

27 de jan de 2017

Quem anda pela cabeça dos outros é piolho




Final de janeiro e início de fevereiro, não somente os filhos, mas também os pais começam a se preparar para mais um ano letivo. Hoje, uma das preocupações dos pais é o material escolar, que todo ano fica mais caro. Mas houve um tempo em que o que deixava os pais de cabelo em pé de verdade era o fato de que ao voltarem às aulas, voltariam também os piolhos na cabeça dos filhos. Para acabar com o coça-coça, as mães passavam de tudo no cabelo, mas o método mais eficaz, e também mais dolorido e chato, ainda era passar aquele pente fino nos cabelos. Igualmente terrível para uma criança era a “catação” de lêndeas e piolhos por horas intermináveis, quando poderia estar brincando.

Tem um ditado popular que diz: “Quem anda pela cabeça dos outros é piolho”. Visto que a família exerce um papel primordial na educação, que abrange princípios de vida e de ética, disciplina e orientação espiritual, quando os filhos passam a exibir valores diferentes daqueles que aprendeu em casa, certamente estão indo pela cabeça de outros, estão se comportando como piolho.

O conselho do rei Salomão era: “Meu filho, ouça a instrução de teu pai, não desprezes os ensinamentos de tua mãe, pois são como um enfeite para a tua cabeça e um adorno para o teu pescoço. Se as más companhias te quiserem seduzir, não lhes dês ouvidos, meu filho” (Provérbios 1.8-10). Há filhos, no entanto, que ainda não conseguem fazer este discernimento, pois não foram ensinados a exercer sua autonomia longe dos pais, dentro de um parâmetro emocional e cognitivo adquirido no seio familiar. Assim como as crianças estão mais vulneráveis aos piolhos, também a personalidade imatura de muitos filhos os tornam mais suscetíveis à sedução das más companhias. A omissão dos pais na correção do caráter e na formação de cidadãos íntegros, certamente trará transtornos à família e, mais tarde, à sociedade.

O saudoso Içami Tiba, psiquiatra e educador, autor de Quem Ama, Educa!, também comparava com o piolho aqueles comportamentos nocivos que o filho traz para casa e que os pais não aceitam, exatamente por não fazerem parte da educação familiar. Eles são transmitidos pelo convívio com as más companhias, infestam a mente, sugam a inteligência emocional e se os pais não passarem um pente fino constante para eliminá-lo do convívio familiar e social, vão continuar se proliferando. Assim como a triste tarefa da catação de piolhos deu origem ao nosso prazeroso “cafuné”, um pente fino familiar, que seleciona o que é bom e o que não é, também gera a felicidade e a alegria de viver com qualidade.

A educação, o ensino de valores e a correção ajudarão nossos jovens “a viver com disciplina e sensatez, fazendo o que é justo, direito e correto” (Provérbios 1.3). Se hoje as famílias combaterem os terríveis piolhos de natureza comportamental, no futuro a corrupção talvez não domine os noticiários e a preocupação em construir mais e mais presídios não domine a agenda de uma boa governança.

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2493 - 27/01 a 02/02/2017 (Itararé, SP)

26 de jan de 2017

Pegue uma cebola

por Rubem Alves

Pegue uma cebola e corte no meio. Então olhe bem para ela com olhos de criança. Se você não sabe o que é o olhar de uma criança, leia o poeta Alberto Caeiro para aprender...
Uma paciente minha, dos tempos em que eu exercia a psicanálise, olhou com olhos de criança para uma cebola cortada ao meio e ficou tão espantada com o que viu que pensou que estava ficando louca.
Uma cebola cortada é mesmo um espanto. Pablo Neruda, olhando para uma cebola, escreveu: "Rosa de água com escamas de cristal...".
Agora, figure que uma cebola cortada é um modelo do mundo. Bem no centro, lá onde o primeiro anel é tão pequeno que não chegou a ser anel, ponha uma criança. Imagine que os anéis são os mundos que ela precisa conhecer para viver.
Mas não é possível comer o que está longe. Não é possível pular anéis. Só se pode comer o quarto anel depois que se comeu o primeiro, o segundo e o terceiro anéis.
A cebola cortada me sugeriu a forma como o primeiro currículo deveria ser organizado: como os anéis de uma cebola, na ordem certa. O que estaria contido no primeiro anel? A resposta é fácil: o primeiro anel que abraça a criança é a sua casa.
Não fui ousado ao ponto de sugerir a construção de uma casa de tijolo e cimento. Mas é a imaginação que faz o que não existe existir! Pensei que a casa onde uma criança mora, o primeiro anel da sua cebola, é um universo imenso, cheio de provocações ao conhecimento.
Primeiro, a casa como objeto matemático: ângulos, triângulos, linhas horizontais, verticais e paralelas, proporções e simetrias.
Depois, como objeto da física: a composição de forças no travamento do telhado, o prumo, o nível, as caixas de ferramentas, o martelo, o serrote, a pua, a física dos materiais, a madeira, o vidro, a cerâmica, o plástico, a eletricidade que esquenta e que esfria, a eletricidade que faz girar, que ilumina e produz música.
Esse laboratório de química chamado cozinha: o fogo, os alimentos, os temperos.
O mundo das coisas vivas: as baratas, as traças, os tatuzinhos, os piolhos, os pássaros, as aranhas, os cachorros, os gatos, os peixes, os pernilongos, os mosquitos da dengue, os caramujos.
O mundo das doenças e da saúde. Os primeiros-socorros. O lixo, as privadas... Ouse imaginar quantas toneladas de cocô por ano os humanos colocam na nossa Terra...
E, ao tomar o seu branco e puro leitinho, imagine quantas toneladas de bosta de vaca e quantos metros cúbicos de gases fétidos são lançados na atmosfera diariamente pelos bovinos inocentes.
O mundo da cultura: as revistas, os livros, a televisão, o jardim, os quadros.
Gostaria de conhecer a casa em que moro, mas não conheço. Aperto uma infinidade de botões que fazem as coisas acontecerem, mas não sei por que elas acontecem, e, quando não acontecem, fico perdido e tenho de chamar um técnico.
Pensei que as crianças gostariam da ideia assim como eu gostei. Aprendendo sobre a casa aprendemos sobre o mundo todo. Pois o mundo todo é a grande casa em que moramos, o último anel da cebola...

Publicado no Jornal Folha de S. Paulo (São Paulo, terça-feira, 01 de junho de 2010)

20 de jan de 2017

O que sai da boca vem do coração


Dizem que a nossa palavra “saudade” seria intraduzível para outra língua. Também tem uma palavrinha holandesa igualmente impossível de traduzir para outro idioma: chama-se “plimpplamppletteren” a façanha de atirar uma pedra na água e fazê-la pular (quicar) várias vezes antes de afundar. O plimpplamppletteren exige toda uma técnica: a pedra deve ser achatada e atirada num ângulo de 20 graus, mais ou menos. Cada pulinho produz ondinhas que continuam por um tempo mesmo depois da pedra desaparecer.

Às vezes nossas palavras são como estas pedrinhas atiradas na água, pois uma vez pronunciadas têm a capacidade de continuar produzindo efeitos, para o bem ou para o mal. Neste caso não é necessário técnica ou habilidade. Nem precisa falar, basta uma publicação no Facebook ou WhatsApp para se verificar o poder de propagação que as palavras adquirem.

Em tempos de redes sociais e de postagens virais, que escapam ao controle de quem as lançou, as palavras também podem se tornar virais no outro sentido do termo: podem se tornar venenosas e ferir a honra de alguém. Na base dos direitos humanos e da ética cristã, está a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e cuja honra é um bem precioso de valor inestimável que está vinculada à própria vida da pessoa, de forma que sem honra, é como se a pessoa morresse para a vida. Por isso, somos convidados a zelar pela honra do próximo. Esse convite está expresso no Decálogo e também nas palavras de Jesus: - Ame o seu próximo como a si mesmo.

Em nossas relações interpessoais, mesmo aquelas mediadas pela tela do computador, uma boa forma de avaliar se nossa comunicação não passa de calúnia, mentira ou bisbilhotice, é submetê-la ao crivo das três peneiras de Sócrates: a verdade, a bondade e a utilidade. Conta-se que quando alguém queria contar alguma coisa ao filósofo grego, este dizia: - Se o que tens a me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil, prefiro não saber e aconselho que o esqueças.

Até mesmo a “sinceridade” e “boa intenção” não nos autoriza a falar o que dá na telha. Nossa fala pode ser sincera e ao mesmo tempo totalmente insensível e agressiva. Nem tudo deve ser jogado aos quatro ventos. É importante refletir antes de falar ou escrever alguma coisa, especialmente nas redes sociais. Ao se tornar público, um conteúdo pode ser copiado, compartilhado novamente e espalhado por qualquer pessoa, tomando uma proporção inúmeras vezes maior que as antigas fofocas de portão.
Cristo disse certa vez que “o que sai da boca vem do coração” e citou os “maus pensamentos”, as “mentiras” e as “calúnias” entre as coisas maléficas que saem de dentro do ser humano. A sabedoria está em tentar dominar esse potencial nocivo, pois um dia, certamente sentiremos saudades de uma amizade ou de um vínculo que se rompeu por causa de palavras “mal ditas”. E contra a calúnia que pode atingir nossa honra, Jesus nos ensinou a pedir no pai-nosso: “livrai-nos do mal”.

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2492 - 20 a 26/01/2017 (Itararé, SP)