19/08/2011

London Calling: a necessidade de ampliar a leitura da realidade


Tanto se fala sobre os tumultos em Londres nos meios de comunicação e pouco se tem refletido sobre as causas de tais manifestações. Nesse aspecto, uma análise mais ampliada e esclarecedora é a fala do sociólogo Silvio Caccia Bava. No entanto, alguns veículos tendem a desacreditar qualquer opinião que transfira a culpabilidade para outras esferas e, quando um entrevistado coloca algumas variáveis importantes na equação, a situação fica embaraçosa. É o que aconteceu quando o ativista, um senhor negro de 68 anos, chamado Darcus Howe era entrevistado pela âncora Fiona Armstrong da BBC News no dia 09 de agosto de 2011.

A entrevista teve grande repercussão na internet e a emissora recebeu muitas reclamações de telespectadores dizendo que Armstrong foi “rude” durante a entrevista, levando a BBC a pedir desculpas por qualquer ofensa causada na entrevista, em virtude da “questão mal formulada” e que não tinha a intenção de desrespeitar o entrevistado. Diante de uma entrevistadora que parece perder o controle da situação, Howe oferece um vislumbre raro e sem retoques do que se passa na cabeça dos jovens da periferia e um testemunho vívido dos maus-tratos recorrentes da polícia sobre seus filhos e netos. E quando Howe diz que não chama os acontecimentos em sua comunidade de “motim”, mas de “insurreição das massas populares”? Ah, isso é demais para as nossas cabecinhas... No mais, a entrevista talvez seja reveladora da inconformidade de uma gente acostumada a ter a palavra tolhida, silenciada. Podemos aprender desse episódio que também é bom ouvir o contraditório para não cair no perigo de se conhecer apenas um lado de uma história, como diz a escritora nigeriana Chimamanda Adichie.

O vídeo da entrevista em questão, amplamente difundido com os títulos “London Riots. The BBC will never replay this. Send it out.” foi objeto de debate na edição do Jornal da Cultura de 12/08/2011, apresentado por Maria Cristina Poli, com a participação dos cientistas políticos Glenda Mezarobba e Carlos Novaes. Vale a pena assistir.

03/08/2011

Direitos Humanos: imagens do Brasil

Convite para a abertura da exposição Direitos Humanos: imagens do Brasil, programada para o dia 15 de agosto de 2011 (segunda-feira), às 19h, no Museu da UFRGS.


27/06/2011

Há no firmamento


 
Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...

PESSOA, Fernando. Vozes da Saudade. Cotia: Vergara & Riba Editoras, 2007.

25/06/2011

Noite de São João para além do muro do meu quintal

NOITE DE S. JOÃO PARA ALÉM DO MURO DO MEU QUINTAL
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.

PESSOA, Fernando. Alberto Caeiro: poemas completos. São Paulo: Nobel, 2008. p. 136

São João, de Di Cavalcanti, 1969 (Óleo sobre tela)

E a música do Vitor Ramil inspirada no poema do Fernando Pessoa:




NOITE DE SÃO JOÃO
Vitor Ramil (Ramilonga, 1997)
Poema de Fernando Pessoa


Noite de São João
Noite de São João
Para além do muro do meu quintal
Noite de São João
Noite de São João
Para além do muro do meu quintal

Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Sem noite de São João
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Do lado de cá, eu
Sem noite de São João

Porque há São João
Onde o festejam
Para mim há uma sombra de luz
De fogueiras na noite
De fogueiras na noite
De fogueiras na noite

Um ruído de gargalhadas
Os baques dos saltos
E um grito casual
De quem não sabe que eu
De quem não sabe que eu
De quem não sabe que eu existo

12/06/2011

''Lamento que líderes do PT deem consultoria aos donos do dinheiro''

Entusiasta da experiência do partido no poder, Frei Betto afirma que petistas não mais prestam auxílio aos movimentos sociais.

Confira abaixo a entrevista que o escritor concedeu ao jornalista Fernando Gallo no jornal O Estado de S.Paulo deste dia 12 de junho de 2011.


ENTREVISTA

Frei Betto, escritor

Sete anos após deixar o governo Lula, no qual foi assessor especial da Presidência, o escritor e assessor de movimentos sociais Frei Betto é um entusiasta da experiência do PT no poder e crítico ferrenho dos dirigentes da sigla. Em meio à crise política e ao impacto do lançamento do programa Brasil sem Miséria, Frei Betto falou ao Estado. Ele elogiou o plano social e não poupou ataques à direção petista no caso Antonio Palocci: "Já não encontro os dirigentes dando consultoria a movimentos sociais".

Como o sr. analisa a saída de Antonio Palocci do governo?

O governo demorou a agir diante da crise que se instalou a partir da constatação desse surpreendente aumento do patrimônio. Isso gerou muitas dúvidas. Dilma, diante de casos como esse, deveria seguir o exemplo do ex-presidente Itamar Franco, que licenciou o Hargreaves (Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil acusado de irregularidades no cargo) até que as coisas ficassem claras. Comprovada sua total inocência, foi reintegrado. No caso do Palocci, houve uma suspeita que os próprios correligionários abraçaram. O fato de a Executiva do PT não emitir uma nota de apoio, de solidariedade, era sintoma de que no partido pairavam dúvidas. Ali foi o momento em que Dilma deveria ter tomado a providência de afastá-lo.

O episódio pode ser considerado um indicativo de que o PT mudou seus ideais ao virar governo?

Exatamente. Nunca me filiei a nenhum partido político, mas ajudei a construir o PT, assessorei muitos movimentos que formaram lideranças que hoje integram o PT e a política profissional. Lamento que os dirigentes do PT hoje deem consultoria aos donos do dinheiro. Andando pelo Brasil, já não encontro esses dirigentes prestando consultoria a movimentos sociais.

O PT revisou o seu projeto?

Ah, sim! No conjunto do partido, salvo exceções de honrosos militantes, o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Quando se estende demasiadamente o bloco de alianças, há que fazer concessões. Elas levaram o PT a ter grande prestígio eleitoral, mas não é mais, infelizmente, o partido representativo dos movimentos sociais. Já não identificam nele o partido que vai enfrentar as forças que impedem reformas de estrutura no Brasil.


''Brasil sem Miséria deve reeditar Fome Zero''Frei Betto acha que programa lançado por Dilma, ao contrário do Bolsa Família, abre porta de saída para famílias



Em um olhar mais geral, para além da crise, que avaliação o sr. faz do governo Dilma?

Ainda é muito cedo para uma avaliação. A equipe de governo é boa. Tem muita gente que vem do governo Lula, já calejada. O governo está mantendo a política externa do Lula, que eu considero brilhante, e está aprofundando os programas sociais, o que é muito positivo. Não gosto do lema "País rico é país sem miséria". Devia ser "país digno", não "rico". Os Estados Unidos são ricos, mas têm 30 milhões de miseráveis. A China é rica e tem milhões de miseráveis.

O sr. vê alternativa fora das alianças feitas pelo PT?

É difícil governar sem alianças, concordo. Mas elas têm de ser feitas em cima de princípios, não de interesses. Quando os interesses aparecem, como no caso do Código Florestal, as divergências também transparecem. A posição do PT e a do governo não coincidiam com a de muitos membros da base, sobretudo a do PMDB.

Como viu a atuação do governo na votação do Código Florestal?

O PT ficou isolado, mas nesse assunto Dilma tem muita clareza e firmeza. Ela sabe que o Brasil vai abrigar no ano que vem uma importante conferência ambiental. Ela foi a Copenhague acompanhando Lula e assumiu compromissos internacionais. Espero que continue com essa posição firme de não ceder frente às flexibilizações da proposta aprovada na Câmara, que parecem prejudicar o meio ambiente e favorecer os desmatadores, aqueles que praticam assassinatos no campo, invadem a Amazônia com o agronegócio e derrubam árvores para fazer pasto.

O sr. já criticou o governo por suspender o kit anti-homofobia.

Pode ser um recuo tácito, mas o tema está em pauta. Você não pode ignorar uma questão que atinge milhões de brasileiros que têm uma opção de vida amorosa e sexual. Como a questão do aborto, também. O governo pode colocar debaixo do tapete, mas uma hora ela vai ter de vir à tona. São questões relevantes para a sociedade no mundo inteiro. Como um feliz ING que sou hoje - "indivíduo não governamental" -, penso que esses temas terão de ser encarados. Espero que Dilma, que tem passado de combatividade, venha a acabar com tabus e trazer mais luz a esses temas.

O governo se omitiu no assassinato dos líderes do Pará?

Para ser generoso, acho que agiu muito timidamente. Tinha de ter mandado ministros, o do Desenvolvimento Agrário, a dos Direitos Humanos. Deveriam ter ido à região, participado dos enterros, cobrado pessoalmente do governo do Pará, que não abre inquéritos. Deveria ter tido atuação mais rigorosa. No enterro do Chico Mendes, foi todo mundo. As pessoas que estão no governo se mexiam. As coisas são vistas pela TV, pelo jornal. Isso é inconcebível. Os mandantes e assassinos estão convencidos da impunidade. Você tem 98 mandantes e assassinos identificados e apenas um preso, que é o Bida, assassino da Dorothy Stang. Liberou geral o faroeste.

Apesar das críticas, o sr. disse que a experiência do PT no poder é a melhor da história brasileira.

Considero o governo Lula o melhor da história republicana, porque gosto muito do governo de d. Pedro II. Espero que o governo Dilma seja o prosseguimento do governo Lula, principalmente por causa dos avanços do ponto de vista social e à política externa. Minha expectativa é de que o governo consiga transformar políticas de governo, como o combate à miséria e a questão ambiental, em políticas de Estado. Que promova as sonhadas reformas de estrutura: política, tributária, agrária. Isso é urgente. Desde o início dos anos 60 o Brasil clama por isso.

Qual a sua avaliação sobre o plano Brasil sem Miséria?

Vejo com bons olhos. Ao menos no papel é um avanço em relação ao Bolsa Família. Espero, e desconfio, como bom mineiro, que o Brasil sem Miséria seja uma reedição do Fome Zero, que era um programa emancipatório. O Bolsa Família é um programa compensatório. Prova disso é que esse programa até agora não tem porta de saída. Quem entra não sabe como sair assegurando a própria renda e condições dignas de vida. O Brasil sem Miséria não só aumenta o número de famílias e os benefícios de três para cinco filhos até 15 anos, como abre perspectivas de funcionamento da porta de saída. Vamos ver na prática se funciona.

Por que o projeto seria uma reedição do Fome Zero?

O Bolsa Família foi introduzido no lugar do Fome Zero por questões eleitorais. O dinheiro não passava pelas prefeituras e os prefeitos se rebelaram. Pressionaram e conseguiram ganhar a guerra. Eles têm o controle do cadastro e evitam que surjam lideranças populares ameaçadoras das minioligarquias municipais. Além disso, segundo o TCU, há indícios de corrupção em 70% das prefeituras do Brasil. Para bom entendedor, meia palavra basta.


QUEM É

Escritor e religioso dominicano, Frei Betto é autor do livro Batismo de Sangue. Foi coordenador da área de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre os anos de 2003 e 2004. No mesmo período, atuou também como assessor especial do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a área social.

07/05/2011

5º Seminário de Políticas Sociais


Tema: As políticas sociais e a democratização da democracia

Data: 12 de maio de 2011, das 9h às 17h30min
Local: Auditório Maristas – Rua Irmão José Otão, 11 Bairro Bom Fim – Porto Alegre

Programação:
9h – Abertura
9h30min - Painel e debate: Realidades, Estado, sociedade e economia hoje. Para onde vamos?
Prof. Dr. Marcio Pochmann (IPEA/UNICAMP)
12h – Intervalo
13h30min – Painel e debate - As políticas sociais e a democratização da democracia. Que fazer? 
Prof. Dr. Rudá Ricci (Presidente Instituto Cultiva - PUC/Minas) e Profa. Dra. Ana Maria Colling (Unilasalle - Canoas/RS)
17h30min – Encerramento

Evento gratuito - Inscrições aqui