Pular para o conteúdo principal

Advento, o Cristo que sempre está vindo


Ícone de Gerges Samir
Advento nos vem dizer que Cristo é aquele que sempre está vindo. É aquele que não cessa de vir. Não é alguém distante que está para chegar. Que corre mesmo o risco de não chegar. Mas aquele que é uma chegada sempre atual. Não é um fato histórico, limitado entre duas datas. Com um começo. E com um fim. Mas esta chegada de Cristo é uma realidade perene. De alguém, como diz o Apocalipse, que está sempre à porta e bate.

Tempos há em que muito barulho reina em nossa casa, e as pancadas dele não se deixam perceber. Muitos aparelhos sonoros gritam altas vozes e sufocam o suave bater do peregrino que volta sempre. Outras vezes, a quantidade de batidas, vindas de cem mil direções, afoga e confunde a batida daquele que quer ser o único a ser escutado. Uma surdez pessoal, não raro, intercepta estas batidas, tornando-as imperceptíveis.

Por isso, o Advento é um tempo excepcional. Cria - ou tenta criar - uma atmosfera mais serena para que as batidas do Mestre ressoem com mais nitidez. Com mais significado. Com mais eloquência. E lhe abramos, assim, a porta, sabendo que ele nos ama a todos como amou o Zaqueu do Evangelho. E por isso leva em seu coração uma necessidade: Zaqueu, hoje preciso hospedar-me em tua casa. Pois só ele tem aquele dom pessoal, aquela palavra individual, aquela mensagem só minha.

É um eterno solicitador. Aquele que nos diz, concretamente, alguma coisa teve início, mas não terá fim. O Pastor que diz, no Evangelho, ser capaz de deixar 99 ovelhas e lançar-se à busca de uma perdida, continua através da história essa busca amorosa. “Estou à porta e bato”. E bate numa comovente teimosia a se repetir sem cessar. Será que nossos ouvidos não se abrirão nunca? No meio das nossas angústias, soluçando alto, de nossas crises, sacudindo alicerces, deveria ressoar o gemido de Cristo: “Se ao menos agora reconhecesse aquele que te pode trazer a paz!...”

Seja este Advento o meu agora. O agora deste mundo que nos cerca, dentro do qual turbilhonamos na incerteza e no temor. E o menino dos nossos presépios tome vida e seu canto de paz tome forma e sobre planícies da humanidade, saciadas do sangue humano, chova o canto da paz. Não uma paz feita apenas de inconsistente trégua, mas paz imorredoura tecida pelo encontro do homem com Deus.

Hugo Baggio (Boletim do CEI - Centro Ecumênico de Informação, nº 61, dezembro de 1971)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O testamento do Cachorro

Hoje, Quarta-feira de Cinzas, procurando alguma coisa interessante pra relaxar e assistir, me deparei com o Ariano Suassuna na TV Senado. Era umas 22 horas, o programa já havia começado a algum tempo, mas peguei muita coisa boa e pérolas valiosas do escritor. Trata-se de uma aula-espetáculo que fora realizada em Junho de 2013, na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília (DF). Depois do programa, acabei explorando na rede muita coisa que o Suassuna falou, partindo de sua fala de que não cria mas copia. Copia o que o provo brasileiro traz. Aí vem as histórias contadas, os muitos cordéis que se perdem no tempo. Procurando a história do enterro do cachorro de um antigo folheto de literatura de cordel - que o próprio Suassuna atribui a fundamentação de “O Auto da Compadecida” -, me deparei com Leandro Gomes de Barros, um grande poeta da literatura de cordel, nascido no sertão da Paraíba, e que viveu de 1865 a 1918. A história do testamento do cachorro é parte do folheto "O d

Mãos frias, coração quente, amor ardente

Parece que o frio finalmente mostrou sua face gélida em nossa região. Enquanto escrevo este texto, o celular está marcando cinco graus em Itararé. Na madrugada a temperatura ficou abaixo de zero. Por outro lado, o noticiário internacional está mostrando as ondas de calor no hemisfério norte que dificultam a luta contra o fogo que atinge Portugal, Espanha e EUA. Estas situações de frio e calor lembram as revelações divinas ao apóstolo João no livro do Apocalipse, especialmente a mensagem dirigida à igreja em Laodiceia: “Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Ap 3.15-16) É bem verdade que o frio em alguns lugares está de “congelar a alma”, mas muitas vezes é um frio de outra natureza que toma conta de nossos corações. Uma frieza no amor a Deus e ao próximo. Uma frieza na fé e nas obras. O apóstolo Tiago escreveu em sua Carta:

A lição do rei Canuto

Há 103 anos atrás o então senador Rui Barbosa ocupava a tribuna do Senado para um desabafo que até pouco tempo também estava preso na garganta de muitos cidadãos brasileiros, devido “a falta de penalidade aos criminosos confessos” e “a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso”. Mais de cem anos de República se passaram com muitos políticos agindo como se fossem donos do poder, sem temer o risco de se haver com a justiça terrena e divina. Mas os recentes acontecimentos parecem indicar que, finalmente, as coisas estão mudando. Tempos atrás, dificilmente se imaginaria que agentes políticos e empresários poderosos seriam réus na Justiça, tampouco presos ou condenados. A sabedoria do rei Salomão é inexorável: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16.18). Muitos estão indo do apogeu à ruína, dos palacetes às celas sem regalias. O escritor Zuenir Ventura, em sua coluna no O Globo (01.02.2017), retrata com espanto