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O que sai da boca vem do coração


Dizem que a nossa palavra “saudade” seria intraduzível para outra língua. Também tem uma palavrinha holandesa igualmente impossível de traduzir para outro idioma: chama-se “plimpplamppletteren” a façanha de atirar uma pedra na água e fazê-la pular (quicar) várias vezes antes de afundar. O plimpplamppletteren exige toda uma técnica: a pedra deve ser achatada e atirada num ângulo de 20 graus, mais ou menos. Cada pulinho produz ondinhas que continuam por um tempo mesmo depois da pedra desaparecer.

Às vezes nossas palavras são como estas pedrinhas atiradas na água, pois uma vez pronunciadas têm a capacidade de continuar produzindo efeitos, para o bem ou para o mal. Neste caso não é necessário técnica ou habilidade. Nem precisa falar, basta uma publicação no Facebook ou WhatsApp para se verificar o poder de propagação que as palavras adquirem.

Em tempos de redes sociais e de postagens virais, que escapam ao controle de quem as lançou, as palavras também podem se tornar virais no outro sentido do termo: podem se tornar venenosas e ferir a honra de alguém. Na base dos direitos humanos e da ética cristã, está a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e cuja honra é um bem precioso de valor inestimável que está vinculada à própria vida da pessoa, de forma que sem honra, é como se a pessoa morresse para a vida. Por isso, somos convidados a zelar pela honra do próximo. Esse convite está expresso no Decálogo e também nas palavras de Jesus: - Ame o seu próximo como a si mesmo.

Em nossas relações interpessoais, mesmo aquelas mediadas pela tela do computador, uma boa forma de avaliar se nossa comunicação não passa de calúnia, mentira ou bisbilhotice, é submetê-la ao crivo das três peneiras de Sócrates: a verdade, a bondade e a utilidade. Conta-se que quando alguém queria contar alguma coisa ao filósofo grego, este dizia: - Se o que tens a me dizer não é verdadeiro, nem bom, nem útil, prefiro não saber e aconselho que o esqueças.

Até mesmo a “sinceridade” e “boa intenção” não nos autoriza a falar o que dá na telha. Nossa fala pode ser sincera e ao mesmo tempo totalmente insensível e agressiva. Nem tudo deve ser jogado aos quatro ventos. É importante refletir antes de falar ou escrever alguma coisa, especialmente nas redes sociais. Ao se tornar público, um conteúdo pode ser copiado, compartilhado novamente e espalhado por qualquer pessoa, tomando uma proporção inúmeras vezes maior que as antigas fofocas de portão.
Cristo disse certa vez que “o que sai da boca vem do coração” e citou os “maus pensamentos”, as “mentiras” e as “calúnias” entre as coisas maléficas que saem de dentro do ser humano. A sabedoria está em tentar dominar esse potencial nocivo, pois um dia, certamente sentiremos saudades de uma amizade ou de um vínculo que se rompeu por causa de palavras “mal ditas”. E contra a calúnia que pode atingir nossa honra, Jesus nos ensinou a pedir no pai-nosso: “livrai-nos do mal”.

Publicado no Jornal O Guarani, nº 2492 - 20 a 26/01/2017 (Itararé, SP)

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