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Ler devia ser proibido




Achei muito interessante o vídeo acima. Acabou por me conduzir a algumas reflexões a respeito do que lemos e por que lemos, principalmente coisas tão antigas.

Na busca de uma ordenação das minhas reflexões acabei caindo no Prefácio do Harold Bloom ao seu livro “Como e por que ler” (“How to read and why”, no original):

“... existe uma razão precípua por que ler. Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria? Se tivermos sorte, encontraremos um professor que nos oriente, mas, em última análise, vemo-nos sós, seguindo nosso caminho sem mediadores. Ler bem é um dos grandes prazeres da solidão; ao menos segundo a minha experiência, é o mais benéfico dos prazeres. Ler nos conduz à alteridade, seja à nossa própria ou à de nossos amigos, presentes ou futuros. Literatura de ficção é alteridade e, portanto, alivia a solidão. Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas, também, porque amizades são frágeis, propensas a diminuir em número, a desaparecer, a sucumbir em decorrência da distância, do tempo, das divergências, dos desafetos da vida familiar c amorosa.” (p. 15)

Na entrevista que Bloom concedeu em 2001, por ocasião do lançamento do livro aqui no Brasil, acrescenta outra motivação para a leitura:

“... todo bom pensamento, como já diziam os filósofos e os psicólogos, depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural. Finalmente, e este motivo está relacionado ao anterior, eu diria que uma democracia depende de pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler.”

No Prólogo do livro citado Bloom ainda arremata:

“Caso pretenda desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, o ser humano precisará continuar a ler por iniciativa própria. [...] Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal.” (p. 17)

E lembro agora de dois professores, de duas áreas distintas, que, coincidentemente na mesma semana, ressaltaram a importância de estarmos dentro de uma tradição, do fato de que as coisas são e acontecem porque foi pensada antes, e muito disso está nos livros e somos, por assim dizer, depositários do passado. Desta forma, ler e estudar, seja lá o que for, é por vezes despir-se de si próprio e vestir-se da história.

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