Pular para o conteúdo principal

Carta a um sonhador

Neste artigo, publicado na Gazeta do Povo, de 27/07/2009, o Professor Adilson Alves se dirige ao Professor Faraco, em virtude de seu artigo publicado no mesmo jornal e postado neste blogue.

Eis o artigo:

Prezado Professor Carlos Alberto Faraco,

Li e reli seu artigo “Dei xemos a língua em paz”, publicado neste jornal no dia 17 de julho deste ano. Confesso, aliás, minha mania de ler suas publicações, que sempre apresentam com precisão seus quarenta anos de pesquisas ininterruptas sobre questões de linguagem. Aliás, no meu mestrado usei algumas de suas intuições sobre Bakhtin. Perdoe-me os equívocos e as lambanças.

Pois é, Professor. Quem está escrevendo é alguém que o ad mira muito. E justamente por admirá-lo é que sugiro que abandone definitivamente essa sua militância em favor de um debate qualificado sobre questões referentes à nossa língua. Por que insistir nessa guerra perdida? Não seria melhor cuidar dos seus netos? Do seu jardim? Sugiro que releia São Bernardo (meu livro predileto!). Mas nada de bobagens, de começar com suas análises refinadas sobre noções de “plurilinguismo” e de “autor-criador”. Chega! Como eu disse: netos e jardim. E ponto final.

Gostaria de tranquilizá-lo sobre as questões referentes aos estrangeirismos. Ouvi dizer que nossa Assembleia sabe o que faz. Aliás, “assembleia” é um estrangeirismo, não é mesmo? Acho que vem do francês... Só espero que ninguém tenha a ideia de tentar traduzir essa palavra para “a nossa língua”. E o que dizer de “nepotismo”? Vem do francês, certo?

Também seria esquisito não encontrar “salame” (do italiano) e “arroz” (do árabe) no mercado perto de casa. Tudo bem: “linguiça” passa por “salame”. Pelo menos são parecidos na forma. Mas e o “arroz”? Será que essa palavra é de origem árabe mesmo? Não tem como a gente inventar uma origem brasileira para ela? Porque eu não vivo sem arroz... Nossa! Quanta divagação!

Acho que é só isso, prezado Professor. Perdoe-me a impertinência, mas espero sinceramente que considere meu apelo. Sobretudo este: netos, jardim, São Bernardo.

Abraço grande!

Adilson

Adilson Alves é professor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O testamento do Cachorro

Hoje, Quarta-feira de Cinzas, procurando alguma coisa interessante pra relaxar e assistir, me deparei com o Ariano Suassuna na TV Senado. Era umas 22 horas, o programa já havia começado a algum tempo, mas peguei muita coisa boa e pérolas valiosas do escritor. Trata-se de uma aula-espetáculo que fora realizada em Junho de 2013, na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional de Brasília (DF). Depois do programa, acabei explorando na rede muita coisa que o Suassuna falou, partindo de sua fala de que não cria mas copia. Copia o que o provo brasileiro traz. Aí vem as histórias contadas, os muitos cordéis que se perdem no tempo. Procurando a história do enterro do cachorro de um antigo folheto de literatura de cordel - que o próprio Suassuna atribui a fundamentação de “O Auto da Compadecida” -, me deparei com Leandro Gomes de Barros, um grande poeta da literatura de cordel, nascido no sertão da Paraíba, e que viveu de 1865 a 1918. A história do testamento do cachorro é parte do folheto "O d...

Corra ao sepulcro!

Os discípulos Pedro e João correndo ao sepulcro na manhã da Ressurreição , por Eugene Burnand (c. 1898) A Páscoa é o ponto alto do Ano Eclesiástico, pois a ressurreição de nosso Senhor Jesus é o acontecimento transformador da realidade humana. O Domingo de Páscoa foi apenas o começo! Para meditarmos mais demoradamente sobre o significado da Páscoa, o brilho da ressurreição é estendido por cinquenta dias até o Pentecostes. É assim que o evangelista Lucas narra este acontecimento fundamental da fé cristã: “No primeiro dia da semana, de manhã bem cedo, as mulheres tomaram as especiarias aromáticas que haviam preparado e foram ao sepulcro. Encontraram removida a pedra do sepulcro, mas, quando entraram, não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Ficaram perplexas, sem saber o que fazer. De repente dois homens com roupas que brilhavam como a luz do sol colocaram-se ao lado delas. Amedrontadas, as mulheres baixaram o rosto para o chão, e os homens lhes disseram: “Por que...

Quem anda pela cabeça dos outros é piolho

Final de janeiro e início de fevereiro, não somente os filhos, mas também os pais começam a se preparar para mais um ano letivo. Hoje, uma das preocupações dos pais é o material escolar, que todo ano fica mais caro. Mas houve um tempo em que o que deixava os pais de cabelo em pé de verdade era o fato de que ao voltarem às aulas, voltariam também os piolhos na cabeça dos filhos. Para acabar com o coça-coça, as mães passavam de tudo no cabelo, mas o método mais eficaz, e também mais dolorido e chato, ainda era passar aquele pente fino nos cabelos. Igualmente terrível para uma criança era a “catação” de lêndeas e piolhos por horas intermináveis, quando poderia estar brincando. Tem um ditado popular que diz: “Quem anda pela cabeça dos outros é piolho”. Visto que a família exerce um papel primordial na educação, que abrange princípios de vida e de ética, disciplina e orientação espiritual, quando os filhos passam a exibir valores diferentes daqueles que aprendeu em casa, cert...